Via Franca

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quinta-feira, 9 de julho de 2020

Quarentena - 9º dia

 Nove de abril... Quinta-feira...

Ainda estava me acostumando com essa rotina de cuidar do meu pai.

Uma vida inteira sendo cuidado e agora...
                Inclusive, eu já tinha lido ou visto em algum vídeo o quanto desconhecíamos dos nossos pais. Eles sabiam tudo e mais um pouco sobre nós, filho... Mas, no máximo conhecíamos alguma preferência alimentar ou estilo de música ou roupa.
                Acompanhando ele no médico, eu não sabia sobre as suas alergias, o seu tipo sanguíneo ou as algumas das enfermidades de menor gravidade que ele teve na sua vida...

                Por isso, neste dia, conversamos bastante sobre a infância dele. 
                Histórias de criança e outras também...

                Ele sempre foi danado de inteligente, mas era público que nunca gostou de estudar. Inclusive, só se formou técnico em Contabilidade, no antigo Ateneu, após o casamento e com muita influência (e insistência) da minha mãe, que era o oposto dele na questão da dedicação ao estudo formal. Ele não se importava em nunca ter feito um curso superior, mas mostrava-se visivelmente chateado quando lembrava que havia sido reprovado por um preciosismo de um professor na época que fez o curso ginasial no "colégio dos padres", o Champagnat (depois até brincava com isso, alegando ser um aluno que só "tirava dez", mas a nota era até cem)... Por essa reprovação teve que se transferir para outro centro de ensino... Lembrava que lá só estudavam meninos, enquanto as meninas que queriam passar pelo ensino ministrado por religiosas, tinham aulas no Colégio de Lourdes (local ocupado depois pela UNESP, no centro de Franca). 

                Lembrou-se também quando salvou a tia Edma de um ataque de boi bravo, quando cruzavam o pasto... Ela sempre o seguia, pois era muito grudada nele e, num desses dias que ele tinha ido jogar bola com os amigos, não percebeu que a irmãzinha o tinha seguido. Quando passou rapidamente por um pasto de uma chácara próximo da casa deles, só ouviu o grito da caçulinha e um garrote, não muito distante, riscando o chão. Disse que nunca entendeu a força e agilidade que teve naquela situação, pegando a pequena menina no colo e passando sem perder velocidade pela cerca de arame farpado. Desde criança, El Cid já tinha DNA de herói...

                Ele gostava muito de um irmão do seu pai, o tio Nego, pois era extremamente desenrolado e foi protagonista de várias passagens engraçadas. Uma delas, foi na negociação de um passarinho que tinha um pequeno problema em uma das suas patinhas. Ao ser questionado pelo pseudo comprador que o bichinho era manco, exaltou-se, perguntando se ele queria a ave para cantar ou jogar futebol.

                Uma que eu adorava ouvir era das surras que o vô Elpídio, seu pai, distribuía nele e nos irmãos (eram um trio). Ele tinha uma régua de madeira com um metro de comprimento. Na menorzinha, a Tia Edma ele batia bem devagarzinho, pois era a sua preferida, mas nele e no seu irmão mais velho, o tio Erund, o meu avô caprichava nas tundas. Não adiantava muito, pois eles enchiam os shorts de papel para amortecer o impacto das reguadas e tinham que mostrar algum sofrimento para não dar muita na vista, o seu truque. Verdade ou não, disse que um dia a régua até quebrou. Eu imaginava essa cena e me divertia muito, pois lembro-me bem do jeito sério, rigoroso, do meu avô, sendo surpreendido pela fragilidade da ripa métrica, em questão.

                Se eu tivesse a mesma genialidade do meu pai, quando criança, essa artimanha teria aliviado a sensação de ardência das diversas sovas que tomei...


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