Vinte e quatro de abril...
Sexta-feira...
O
dia começou com menos dor, mais esperanças dele voltar a caminhar sem a ajuda
de muletas ou do andador.
O
meu pai nunca foi muito de ir ao médico... Sempre foi sistemático com dores e
doenças. Raramente o víamos reclamar de algo, neste sentido.
Lembro-me,
quando criança, que ele foi ao dentista arrancar todos os dentes, por conta de
uma nevralgia... Que curava qualquer ferida com iodo e acabava com piolhos
usando Neocid (veneno para formigas) nas nossas cabeças.
Ainda me lembro do olhar dele para mim, quando uma ex-namorada observou que as
canelas dele estavam com a pele muito seca e se ofereceu para passar um creme
hidratante.
Eu
fui o oposto dele... Desde criança sempre fui de médicos e doenças... Um
moleque fraco para essas coisas. Bronquite, rinite, sinusite, resfriados mil...
Hoje,
imagino quantos perrengues os meus pais passaram comigo. Por várias vezes, as
madrugadas deles eram no pronto socorro e no outro dia bem cedo, já teriam que
trabalhar, cumprindo horários e funções. Sou grato a eles...
Por
isso, quando tive que cuidar do meu velhinho, ajudando-o a tomar banho, a se
barbear, fazendo vezes de enfermeiro e até amparando-o para evitar quedas,
senti-me estranho... Eu não estava preparado para isso (acho que ninguém nunca
está). Ainda hoje o grito de "me segura, filho" de uma quase queda
dele, me machuca a consciência... Quem sempre me amparou e segurou foi El Cid,
não o contrário...
A
gente se prepara para muitas coisas na vida, mas para outras nos guardamos,
fingimos que nunca irão acontecer, daí o sofrimento é maior...
Mesmo fragilizado, a imagem que
fica na minha memória é daquele herói, com a sua armadura bem avariada, colocado
sobre o cavalo para uma última batalha, cavalgando ao encontro do olhar
apavorado dos seus oponentes e conduzindo os seus para uma vitória, até então,
improvável.
Esse exército sou eu, que saí
fortalecido e muito transformado após todos esses dias, com a responsabilidade
de eternizar os seus feitos e conquistas.

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