Via Franca

Via Franca

domingo, 9 de agosto de 2020

Quarentena - 40º dia


                 Dez de maio... Domingo...

                Último dia que passei ao lado do meu pai...

                Na realidade, últimas horas, pois eu viajei logo de manhã para encontrar a Eliane, minha esposa, que estaria me esperando em Pirassununga... A Érica, minha irmãzinha caçula, e o Luizmar, meu cunhado, marido da minha outra irmã que também se chama Eliane, me levariam até ela...

                Saímos de casa, por volta das nove horas da manhã...

                Tomei o café com os meus pais (o meu último com ele), conversamos um pouco, cortei mamão para ele e fiz vitamina de frutas, como em todas as manhãs neste período que passei lá em Franca...

                No dia seguinte, El Cid iniciaria o tratamento de radioterapia para combater a metástase na coluna, de um câncer que nunca soubemos qual foi a sua origem...

                Ele estava bem ansioso, pois tinha esperança de voltar a caminhar sem o auxílio do andador, poder dirigir novamente, trabalhar na chácara, ir fazer as tradicionais compras no varejão e na feira livre, levar o Gabriel, seu neto, para jogar bola na escolinha, buscar a Isa, outra neta, na escola, passear com a Dudinha, a caçulinha, na pracinha, entre outras coisas...

                Este domingo foi especial, pois o dia dez de maio é o aniversário da minha mãe, o dia que fui batizado e também o meu casamento civil, no cartório, com a Eliane... E, em 2020, era o domingo do "Dia das Mães"... Inclusive, quando comecei a escrever estas quarenta postagens, que chamei de "Quarentena", programei para terminá-las no dia 09 de agosto, também um domingo, "dia dos pais"...

                Pude passar quarenta dias ao lado do meu pai, desde 01 de abril, relembrando muitas histórias, compartilhando carinho, amor, cuidando dele e aprendendo ainda mais, com os seus ensinamentos e lucidez... Usufrui do seu bom humor, da sua esperança, da dramaticidade de algumas situações e da esperança, que me contaminou até o dia que recebi a notícia, no dia vinte e um de maio, do seu falecimento (gosto de dizer que ele “encantou”)...

                Fui privilegiado...

                Recebi um presente de Deus, por conseguir me despedir dele, lentamente, com toda a intensidade e saindo de Franca com a certeza que o veria de novo...

                Fiz uma imagem, já dentro do carro, inquietado pelo olhar perdido dele, escorado no batente da porta... Havia ganhado um beijo, um abraço demorado e um pedido carinhoso para me cuidar... Nos despedimos com o tradicional "eu te amo", quando lhe pedi a benção... É o último retrato dele... 

                Foi a última vez que o vi...

                A nossa despedida...

                Te amo, pai...

                Te amo...



 


sábado, 8 de agosto de 2020

Quarentena - 39º dia

 

                Nove de maio... Sábado...

                Festa de aniversário da Dudinha, na casa da Érica. Por conta do isolamento imposto pela Covid-19, os participantes eram apenas nós, da família próxima: El Cid, mamãe, André, Érica, Gabriel, Dudinha (que já havia completado dois aninhos no dia 19 de março), Eliane (minha irmã), Luizmar, Isabela e eu.

                Foi nossa última festa juntos, na casa da Érica, depois dela sempre terá uma ausência sorridente nas nossas fotos. Ele gostava de celebrar.

                Fez questão de tirar o andador, para não aparecer com ele na imagem. Eu fiquei temeroso, já que El Cid perdeu praticamente toda as suas forças nas pernas, mas confesso agora, que fiquei feliz por ele ter feito isso. Guardaremos essa imagem invencível, indestrutível que ele sempre passou para todos nós.

                Lembramos de uma história antiga, que nos garantiu boas risadas... Quem já morou ou dirigiu no interior do nosso estado, sabe que a condução do veículo é bem diferente daquela da capital.

                Como em São Paulo o trânsito flui mais agressivo, com muito mais carros do que em qualquer outra cidade do Brasil, acaba gerando um acordo tácito entre a maioria dos motoristas.

                Por incrível que pareça o uso da seta é mais comum na capital do estado, do que em outros lugares e muitos motoristas cedem um pouco do espaço que poderia ser ocupado pelo seu carro para que o condutor consiga sair da sua vaga ou de uma parada obrigatória numa rua mais movimentada.

                No interior não tem isso, não!!

                Muitos nem se lembram de ligar a seta, odeiam diminuir a velocidade para outros passarem, inclusive para pedestres, e acham que possuir um carro, os diferencia daqueles que andam pelas calçadas.

                Por isso, quando ando a pé ou de bicicleta pela minha cidade natal, redobro a atenção, ao atravessar ruas e avenidas. Na metrópole, também me cuido, mas sei que muitos vão me permitir atravessar entre o seu carro e o da frente, sem acelerar de maneira ruidosa (com certeza, há “muitas exceções”).

                Tanto que, ao vir com o meu pai para cá, fui atravessar uma via movimentada de Guarulhos entre dois carros (o de trás diminuiu para que pudéssemos passar), mas El Cid titubeou e não quis arriscar-se, negando-se a me acompanhar na "aventura"...

                Brinquei com ele, depois de esperar algum tempo para chegar na outra calçada:

                - "Poxa, pai, pode ficar tranquilo, porque os motoristas daqui diminuem um pouco para que os pedestres possam atravessar. Da próxima vez, pode confiar!"

                E ele, de pronto, afiadíssimo, como sempre:

                - "Eu não! E se o motorista justo daquele carro for de Franca?"

                Pois é, depois desta constatação, nunca mais arrisquei...




sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Quarentena - 38º dia

                Oito de maio... Sexta-feira...

                Véspera da festinha de dois anos da Dudinha, a netinha dele.

                A comemoração seria na casa da minha irmã caçula, a Érica, mesmo quase dois meses depois do aniversário da minha sobrinha, apenas para "os de casa"...

                Como nos outros dias, El Cid, estava reclamando um pouco da demora em poder voltar a andar, naturalmente, sem apoio ou ajuda do andador.

                Ele possuía uma característica que lhe era bem peculiar: uma facilidade invejável de decorar nomes... Se orgulhava de saber todas as capitais dos países do mundo. Era divertidíssimo conversar sobre isso com ele, pois além de me citar o nome da cidade, também contava alguns detalhes sobre a maioria delas, principalmente as suas preferidas, aquelas que já existiam na Antiguidade. 

                O amor dele por mapas era único também. Tinha um atlas e um guia turístico que geralmente consultava quando ouvia algo sobre alguns lugares e, mesmo quando os conhecia bem, ia dar uma conferida lá...

                Antes de qualquer viagem nossa, ele pegava o Guia Quatro Rodas dos anos 2000 para verificar as cidades que passaria no caminho para contar histórias delas no carro, pois na última década virou passageiro, com muito tempo para ficar "observando as paisagens" no deslocamento, característica que herdei dele, com certeza.

                Desde criança, nos “Dinos” da Viação Cometa, El Cid vinha narrando as localidades que estariam no percurso, até o terminal rodoviário da Praça Júlio Prestes (aquele com acrílicos coloridos, bem psicodélica, que não existe mais). As anunciava, com boa antecedência de distância, geralmente com alguma história pessoal, naquelas que ele já havia pisado: Batatais, Brodowski, Ribeirão Preto (a sua preferida, que nutria "falsa rivalidade"), Cravinhos, Porto Ferreira, Pirassununga, Leme, Araras (que a Érica quando criança perguntava se era "Araras Quaras"), Limeira (a parada mais antiga para banheiro, onde ele se levantava antes mesmo da chegada, para deixar bem claro que conhecia bem o trajeto), Americana, Sumaré, Campinas, Jundiaí e São Paulo.

                Quando eu viajava sozinho, mesmo fora do Brasil, ele usava os seus livros e material de consulta para conversar comigo sobre onde eu iria. Era detalhista, pois gostava de saber sobre pequenos trechos, específicos, que eu poderia não ter me atentado. Era extasiante quando me apontava algum detalhe que tinha fugido no meu planejamento e íamos pesquisar juntos, no meu celular ("filho, dá uma olhada sobre isso").

                Por falar em viagens, era o único - notem a palavra que usei, o único - que me pedia para ver as fotos das minhas viagens. Como adorava ver fotografias...

                Eu “viajava novamente” quando as mostrava para ele. Inclusive, em muitos lugares os cliques eram feitos para uma posterior conversa com ele.

                Lembro-me quando fui para o meio oeste americano, em julho de 2018, e fotografei Monument Valley de diversos ângulos. Divertimo-nos muito, depois, tentando lembrar de filmes de faroeste rodados naquelas paisagens.

                Eu tirava muitas fotos para ele, pois tinha a certeza de que o meu pai, viajava pelo meu olhar. Eu sabia que ele jamais conseguiria conhecer as paisagens das novelas de cavalaria, o solo onde Cristo percorreu, os desertos de beduínos e tuaregues, os portos de onde saíam barcos vikings, as montanhas disputadas por indígenas e colonos americanos, as cidades das "mil e uma noites", a Itália de Puccini... Então, eu viajava também por ele.

                Os velhos álbuns de fotografia, cuidados com esmero e guardados até hoje dentro do móvel da sala são testemunhas da sua paixão em registrar momentos importantes da nossa família. Temos uma linha de tempo rica, organizada por ele.

                Uma pessoa que gostava de ficar em casa, mas também amava lugares distantes. Com isso, assistia muita TV e curtia programas de viagens e documentários, onde o "Brasil Visto de Cima" era um dos seus preferidos, religiosamente assistido todos os dias que passava... Quando eu estava em Franca, víamos juntos...

                Ele adorava "trocar uma ideia" sobre os locais que eu já havia visitado e que era mostrado no programa ("você viu isso lá, filho", "não é aquilo que apareceu na foto que você me mostrou").

                Confesso que até hoje, não consigo assisti-lo mais. Dá um aperto no peito.

                Tenho que superar isso.

                O meu amor pela história e geografia vem bastante da influência desse meu professor... 


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Quarentena - 37º dia

                Sete de maio... Quinta-feira...

                 Noite tranquila, El Cid acordou de muito bom humor... Brincou com a minha mãe em relação à quantidade de remédios que tomava todos os dias... Comeu bastante... Demos muitas risadas, nós três, na mesa de um desjejum que demorou bastante...

                Uma parte da conversa foi sobre loterias e jogos de azar...

                Sempre tivemos na família pessoas que gostavam de apostar em alguma forma de competição... Felizmente, nada compulsivo, como aquelas velhinhas que frequentam o submundo de bingos clandestinos ou os fanáticos pelo colorido iluminado dos caça níqueis que estão espalhados por botecos da periferia da grande São Paulo.

                Seu Elpídio, meu avô paterno, amava os carteados e, até o seu passamento, sempre fazia os seus joguinhos na loteria esportiva e na Loto... Chegava a suar frio, quando acertava algum número na sua conferência (não me lembro dele ter alcançado mais do que dois números em nenhum jogo). Esta sua mania (ou seria vício?) passou para o seu filho do meio, no caso o meu pai...

                El Cid, fazia os seus joguinhos (preferia a megassena), usando a mesma combinação de números que retirava das datas de nascimento dele e da minha mãe: 10, 05, 48, 21, 09 e 36.

                Ele fazia a aposta mais simples e dizia que gostaria de acertar junto com outros apostadores (não queria ser o "único ganhador") para que não chamasse muito a atenção... Gostava do "anonimato, discrição para estas coisas"...

                Claro, que não jogava sempre, mas conferia impreterivelmente os resultados, apostando ou não... Inclusive, anos atrás, quase chorou de raiva, pois teria acertado uma quina, se tivesse se arriscado na loteria.

                Todo domingo, até um bom par de anos atrás, ele saía com o cachorrinho da família, o Zuzu, até a pracinha da Jussara para comprar o Comércio da Franca e conferir o resultado do sorteio do dia anterior (como já escrevi, fazia isso mesmo quando não jogava)... Era uma rotina semanal bem interessante.

                               Num desses domingos em que eu estava em Franca, acordei muito cedo e entrei no computador para ler algumas mensagens.

                Ao abrir a página do site, vi que havia um único acertador da megassena acumulada, justamente da cidade de São Paulo... Anotei os números que foram sorteados, em um pedaço de papel, e esperei o meu pai chegar com o jornal.

                Ao entrar na cozinha, fui até ele e mostrei o papel que eu havia copiado da tela do computador, dizendo que eu os havia jogado durante a semana, mas tinha deixado o bilhete no bolso do meu jaleco de professor, na escola.

                Ele achou interessante a minha iniciativa, já que eu nunca aposto em nada que envolva dinheiro ou outros bens... Brincou até que a minha sorte de principiante poderia trazer algum acerto...

                Quando começou a conferir os números, acreditando que eu havia jogado, de fato, arregalou os olhos e começou a tremer (o jornal balançava, nas suas mãos, como se estivesse numa manhã de muito vento, igual às "frescas" que sempre sopram na nossa cidade). Olhou para mim e, com voz embargada, me perguntou se era verdade mesmo... O riso aberto de galhofa foi substituído por outro de tensão!

                Óbvio que, temendo o pior, eu disse que era uma brincadeira, pois eu já sabia a sequência sorteada...

                Até hoje, eu não sei se a expressão dele após aquele momento foi de decepção ou de alívio. Mas, a certeza que ficou foi que perdi totalmente a credibilidade em relação a algum sucesso que eu pudesse ter em sorteios e rifas...

                Tudo bem que nunca mais apostei, nem em título do tricolor do Morumbi ou no acesso da nossa Veterana.





quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Quarentena - 36º dia

                Seis de maio... Quarta-feira...

                Novamente, ele acordou com um pouco de pessimismo em não conseguir o movimento pleno das pernas,,, Para quem sempre foi irrequieto, gostava de andar por vários lugares, isso era um tormento.

                Não sei exatamente o porquê, mas lembramos do "dia de Reis", que é comemorado em 06 de janeiro... Lembranças que me remeteram ao nosso cotidiano simples, de gente caipira, que sempre valorizou as tradições culturais...

Nem tenho certeza se meu pai curtia tanto assim os reisados (as cavalhadas, tenho certeza de que amava), mas El Cid sempre me levava para acompanhá-los.

                Um adendo histórico: apesar de ser uma tradição portuguesa, inspirada na tradição católica de visita dos três Reis Magos ao menino Jesus, as Folias de Reis chegaram ao Brasil no século XVIII e se popularizaram entre os habitantes de muitos estados (principalmente Minas Gerais, Goiás e São Paulo)... É, inclusive, patrimônio imaterial do estado de Minas Gerais.

                Desde criança, a minha ligação com as folias foi muito grande...

                Para mim, elas representam uma das manifestações populares mais autênticas e expressivas que existem... O meu avô materno, Antônio, as apreciava e ouvia todas as suas variações... O meu pai até bem pouco tempo atrás, ficava antenado nos dias de apresentações delas, lá na nossa Franca, e me ligava: "filho, sábado tem apresentação das folias, lá na exposição... Você vem?" E, eu ia... E ficávamos horas no meio da festa (os meus olhos marejaram, agora).

                Faço um aparte, para acrescentar nestas memórias, outras personagens também muito significativas para mim (e que também eram para El Cid)...

                O que me marcou mesmo sobre os reisados, foi na infância, no sítio da tia Geralda, lá em Ituverava, próximo ao povoado de Capivari da Mata, quando eu ia passar férias com a minha vó Zilda, a minha madrinha... Como sempre estávamos lá entre o Natal e o dia de Reis, era comum presenciar as apresentações das folias, no sítio dela...

                Lugar bucólico, sem energia elétrica, iluminado por lamparinas à querosene, dormia-se muito cedo ("com as galinhas", segundo uma expressão muito usada na época)... Mas, nas madrugadas sempre vinham os foliões com as suas bandeiras, roupas coloridas, violas, sanfonas e pandeiros enfeitados com fitas...

                Lembro-me de acordar com uma música bem distante e olhar pela janela, na amplidão do pasto que rodeava a antiga casa, enxergando as luzinhas cintilantes dos candeeiros deles... O coração já acelerava... A música crescia na medida que se aproximavam e havia toda uma reverência para adentrar a casa...

                Comumente era oferecido cachaça para os foliões, dinheiro na forma de esmola para a igreja e um delicioso bolinho de polvilho, servido para todos, com café (não era o biscoito tradicional que conhecemos aqui em São Paulo, mas um bolinho sovado com erva doce e frito na hora, crocante por fora e muito macio no seu interior, uma das especialidades da minha família, para a "merenda").

                Os foliões cantavam, dançavam e bebiam muita cachaça... E nós, da casa, ficávamos atônitos, extasiados, hipnotizados pelo colorido e pelas vozes agudas e bem afinadas... A reverência de oferecer a bandeira para a dona da casa, que a beijava e era consagrada por ela, tinha uma beleza ímpar.

                Lembro-me que os palhaços ou bastiões geralmente me assustavam e para amenizar, os meus primos, bem mais velhos do que eu, Francisco, Maria das Graças e Antônio José, me diziam: "deixa disso, moleque, é o Acácio da tia Jerominha que tá vestido assim para zombar de ti”...

                Tá bom, jamais, pois o Acácio era bem mais alto e gordo que aquele marungo!

                Os foliões eram todos lavradores, vizinhos da tia Geralda (muitos até nossos parentes), que haviam trabalhado o dia todo na roça, na enxada, debaixo de sol e chuva, mas à noite se transformavam em seres divinos, que trocavam o seu cansaço pela alegria de louvar e encantar a todos nós... Era sublime...

                Tem cenas que sei que nunca mais vou viver, até mesmo porque faltarão os seus protagonistas... Esta é uma delas...

                Felizmente, ainda está viva e bem forte na minha memória.

                Pulsando, como a figura de El Cid...



terça-feira, 4 de agosto de 2020

Quarentena - 35º dia

                Cinco de maio... Terça-feira...

                Seguem os exames preparatórios para a radioterapia... A maior esperança do meu pai é voltar a caminhar sem o uso de apoio... Ele chegou até a confidenciar para a minha mãe, que se não voltasse a caminhar, perderia todo o sentido de "continuar prosseguindo".

                A nossa família é bem sólida, muito valorizada por El Cid e pela dona Elenice, mas mesmo eu e as minhas irmãs, criados de maneira idêntica, crescemos com características e personalidades muito distintas.

                Como primogênito sempre fui o "centro das atenções", mas sofri um baque com o nascimento da Eliane, minha primeira irmãzinha, quando tinha cinco anos de idade.

                Inicialmente, tive muita curiosidade e até curti, mas quando percebi que deveria dividir as atenções gerais também com aquela pequenininha, foi terrível... Baixou o ciúme... Nunca me deixaram esquecer que no primeiro aniversário dela, a minha mãe teve que espalhar os brinquedos pelas duas camas, cantar parabéns para os dois e fingir que comemorava alguma coisa também para mim. Os parentes tinham até se acostumado com os ataques de choro e birra, quando a pequenininha recebia mais atenção.

                Independente disso, crescemos com aquela boa cumplicidade de irmãos (uma exigência dos meus pais), sempre unidos, socializando brincadeiras, aprontando muito e sofrendo todas as consequências, também juntos, das incontáveis travessuras.

                As brigas eram comuns, mas foram diminuindo com o tempo.

                Até que, surge uma nova pessoinha.

                Quatro anos mais nova que a Eliane, era ainda mais mimada e protegida do que nós, os mais velhos.

                Sempre foi bonitinha, calma e muito meiga, por isso todos se encantavam com ela, principalmente nós, seus irmãos.

                Morávamos numa casa muito pequena, de fundos, na Rua Francisco Társia, bem no coração da Vila Nova, construída no quintal do terreno da casa da minha avó. Tinha dois quartos que, antes da chegada da caçulinha, eu tinha exclusividade em um deles e o outro era dividido entre os meus pais e a Eliane.

                Com mais uma criança na casa, comprou-se um beliche para acomodar a Eliane e eu no quarto que antes era só meu e o bercinho passou a ser ocupado pela Érika (só depois, foi Érica).

                É claro que essa obrigação de dividir o espaço do pequeno quarto, fez surgirem novas rusgas entre os irmãos mais velhos. Brigava-se por quase tudo, mas principalmente pelas preferências distintas, em relação à iluminação na hora do sono. Eu que dormia na parte de cima e tinha a luz bem no meu rosto, queria a lâmpada apagada. A minha irmã do meio que, por dormir embaixo, havia uma pequena penumbra proporcionada pela presença da cama de cima e tinha muito medo do escuro, queria o quarto iluminado (dizia que a escuridão lhe dava "falta de ar"). E a caçulinha, no quarto dos meus pais, reclamava que não conseguia dormir por conta da bagunça no nosso quarto.

                Hoje, todos lembramos com graça disso tudo, pois chegava a ser uma cena de "comédia pastelão"... Eu descia do beliche e apagava a luz. A Eliane me esperava subir de volta, me cobrir, e ia até o interruptor e a acendia. Eu descia, apagava-a novamente, ameaçava a minha irmã e voltava para a cama... Ela esperava um pouco e acendia de novo.

                E, assim a noite avançava, com um fim só quando algum dos dois cedia.

                Mas, a história que eu e meu pai lembramos deste imbróglio, foi um dia que ninguém cedeu e, por isso, começou uma algazarra infernal. Daí, El Cid, bem impaciente, exaurido por um dia cansativo e influenciado pelos pedidos da irmãzinha menor que não conseguia dormir (na realidade eu acho que ela queria estar conosco, no fuzuê), resolve intervir.

                Vai até o quarto, chama a nossa atenção de maneira ríspida e decreta:

                - "Se eu ouvir mais um pio neste quarto, os dois vão dormir quentes (é fácil entender o que é dormir quente, né)!"

                Quando tudo levava a crer que a paz estaria reestabelecida naquele local, armistício decretado, ele vira as costas e a Eliane sacramenta:

                - "Piu..."

                Gargalhada geral, uma boa surra e a caçulinha no outro cômodo, de alma lavada pelo corretivo aplicado, vibrava: "isso, papai, bate mesmo nesses moleques..."

                E, assim, era sedimentada a união de nós três, que existe até hoje entre as minhas irmãs e eu.





segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Quarentena - 34º dia


Quatro de maio... Segunda-feira...

                Levantamo-nos bem cedo para fazer uma tomografia no Hospital do Câncer, de Franca... Quem nos levou, dessa vez, foi a minha mãe... O medo do Covid-19 era visível, mesmo assim, sentimos um pouco de descaso por parte de muitas pessoas. Parecia que poucos, como nós, estavam levando a sério o isolamento e as recomendações para evitar o contágio. Ficamos tristes, por esta situação.

                No hospital, fizeram umas marcações no tórax dele, como se fossem um X de alvo para atiradores... Demos muitas risadas disso, pois a sugestão era dar estilingues para os moleques lá de casa, deixar El Cid sem a camisa e usá-lo como "alvo móvel" para tiros de castanha de coquinho catarro... Isso rendeu piadas para quase uma semana.

                Ele sempre curtiu muito o tempo que teve como militar, ou no tiro de guerra de Franca ou na Marinha, no Rio de Janeiro. Gostava muito da ordem, da hierarquia e, principalmente, de armas, em geral.

                Sempre teve várias e orgulhava-se de uma Winchester que levava sempre consigo nas pescarias, quando solteiro (teve que vendê-la depois do meu nascimento, mas ainda continuou com uma Mauser, escondida no guarda-roupa).

                Uma dessas histórias, que ele contava foi numa viagem de diversão com outros amigos (iam em Lambretas) para o Rio Sapucaí Mirim, que atravessa municípios vizinhos da nossa cidade, ficaram dando tiros na superfície da água, só para ouvir o "assovio" que o projétil fazia ao se distanciar.

                Claro que isso, chamou a atenção do segurança de uma fazenda próxima, que se dirigiu até o local para verificar o que estava ocorrendo (a caça era proibida na área). Ele contava que o homem chegou no grupo, os repreendeu e disse que teria que confiscar a arma.

                Um dos amigos do meu pai, conhecido como Barbeiro, que estava com a Winchester na mão, disse categoricamente, que seria um "ato pouco inteligente" tentar retirar sozinho e desarmado, uma arma das mãos de quatro desconhecidos...

                Parece que o argumento foi bem razoável, pois o segurança foi demovido da sua ideia original, mas mesmo assim saiu ameaçando o grupo de denúncia na força policial. Claro, que eles nunca mais voltaram ao local e, acredito, seriam incapazes de atirar em alguém (pelo menos, em relação a El Cid, tenho certeza disso).

                Após a morte do meu avô, ele também herdou um 38 cromado que foi entregue na delegacia, junto com a outra pistola, depois do decreto de desarmamento, de anos atrás... Era muito engraçado, pois sempre que íamos viajar, ele brincava que não podia esquecer de levar o "38 dele"... No caso, era o chinelo (ele calçava 38)...

                Sempre admirei o bom humor e a seriedade dele e, mesmo eu odiando armas, gostava de ouvir as suas boas histórias sobre elas.

 

 

domingo, 2 de agosto de 2020

Quarentena - 33º dia

                Três de maio... Domingo...
                Mais uma vez, dia de irmos para a chácara. Expectativa para o exame do dia seguinte que irá direcionar o tratamento com a radioterapia... Já nos levantamos conversando sobre isso. Há uma esperança incrível, que a radiação ataque um dos tumores o que está mais próximo da sua coluna e ele volte a caminhar sem o andador, com firmeza nas suas pernas.

                Fomos para o nosso tradicional programa dominical, localizado na área rural de Cristais Paulista, e não sei bem o porquê, mas no caminho lembramos de uma história muito engraçada, que quase causou um problemão para El Cid...

                Certa vez, ainda pequeno fui levado para a empresa que meu pai trabalhava para acompanhá-lo em algumas horas de "serão noturno" para recuperar um pouco do serviço atrasado.

                Era uma usina de laticínios, bem conhecida na cidade, e ele trabalhava no escritório dela, cuidando de alguns papéis da contabilidade.

                Ele me colocou em uma das mesas do fundo e ficou na escrivaninha dele, datilografando algumas saídas de produto.

                Eu peguei uma folha de papel e comecei a desenhar... Curioso, como qualquer criança de oito anos, ao vê-lo cioso com as notas fiscais, comecei a mexer na mesa que eu estava sentado. Peguei na gaveta outras canetas, um lápis borracha, algumas folhas de rascunho, papel carbono e dois carimbos.

                Num deles eu li o nome da pessoa que era a responsável pela mesa que eu estava acomodado.

                E, pasmem, ela tinha o nome muito semelhante da minha avó materna, que me cuidava na ausência dos meus pais e que, naquele exato dia, tinha delatado para a minha mãe uma malcriação que eu tinha cometido, resultando em uma pequena dura.

                Mordido com aquela situação que acabava de voltar à minha mente, irado com a minha avó, eu não pensei duas vezes: peguei uma das folhas de papel e escrevi os maiores impropérios que eu conhecia, usando o nome da minha avó como sujeito, mas que era quase homônima à dona da mesa em que eu estava.

                Raiva destilada, já leve por ter podido colocar em palavras tudo o que eu sentia naquele momento, piquei em pedacinhos bem miúdos aquela pequena lauda e atendi o chamado paterno para deixar o escritório e voltar para casa.

                Tudo perfeito, só que eu não tinha percebido um pequeno detalhe: embaixo da folha de papel que eu tinha utilizado havia ficado um dos carbonos que eu havia retirado da gaveta.

                No outro dia, a quase xará da minha avó, ao sentar-se na mesa, praticamente teve uma síncope, ao ler vasto "conteúdo atentatório contra a sua pessoa".

                Deu um "piti" homérico, um escândalo daqueles que abalou a pacífica estrutura do local.

                Os chefes foram chamados, os funcionários foram convocados e, antes de qualquer investigação mais minuciosa (ela já tinha acusado um contínuo que "não morria de amores por ela"), o meu pai ao se aproximar da mesa, sentenciou de maneira extremamente honesta:

                - "Esta é a letra do meu filho, que eu trouxe comigo ontem à noite, quando vim terminar o trabalho após o expediente!"

                Nem precisava escrever que ele foi firmemente repreendido e quase demitido.

                Além de muito envergonhado, o meu velho estava muito nervoso e, por sorte, foi parado pela minha mãe antes de me encontrar.

                Após ouvir atentamente a história que foi contada para ela, percebi que eu levaria uma sova daquelas...

                Casa pequena, eu no quarto sem ter como pular a janela, que estava trancada, ao ouvir o meu nome, não pensei duas vezes, fui correndo para o banheiro e me tranquei lá dentro.

                O meu pai batia na porta e me ameaçava, dizendo que, se eu não abrisse, o "coro seria dobrado" (já dá para imaginar o significado de "coro", para esta situação).

                De jeito nenhum eu abriria aquela porta.

                Aguentaria ali, sentadinho no trono, bebendo água da torneira e rezando por, pelo menos, duas semanas...

                Como ele viu que ameaças não me intimidariam, pegou uma chave reserva na gaveta e colocou na fechadura (quem tinha criança pequena em casa, sempre guardava "chaves reservas" na gaveta). Após isso, o que transcorreu foi quase uma "comédia pastelão", pois ele girava a chave para abrir a porta e eu, do lado de dentro, girava ao contrário para mantê-la fechada.

                Como não daria em nada, caberia somente um acordo mútuo para pôr fim ao impasse.

                Após quase duas horas de intransigência e mais calmo, ele me pediu para sair, pois só tínhamos um banheiro em casa e a minha irmãzinha queria usá-lo (eu tinha percebido o choro dela).

                Fiz ele me garantir que não me castigaria.

                Como ele sempre foi um homem de palavra, abri a porta, após a promessa que não levaria uma surra dele.

                Naquela noite, apanhei da minha mãe...



sábado, 1 de agosto de 2020

Quarentena - 32º dia

                Dois de maio... Sábado...

                Hoje mais disposto, foi receber o entregador de gás... Conversaram um pouco sobre a vida e El Cid ficou feliz em receber votos de melhoras... Ele valorizava muito ter a simpatia das pessoas que não tinham uma convivência diária com ele... Gostava mesmo de agradá-las e ser útil, até mesmo aos quase estranhos.

                Hábito comum no interior é a pescaria.

                Atualmente, com rios poluídos e poucos peixes à disposição, cresceu o número de pesqueiros, os famosos "pesque e pague". Mas, no tempo que ainda se "amarrava cachorro com linguiça", a atividade era feita à beira de rios e córregos, sentado no barranco, municiados com varinha de bambu e minhoca.

                Lembro-me das minhas primeiras pescarias ao lado do meu pai.

                Íamos sempre em número suficiente de amigos para evitar qualquer tédio, caso não aparecesse algo que quisesse se submeter aos nossos anzóis.

                A preparação começava na véspera, com a escolha da vara correta, específica para cada tipo de peixe.

                Eu era encarregado de conseguir um bom número de anelídios, que buscava nos canteiros da horta dos fundos da casa da minha avó.

                Tinha que fazer escondido, pois aquela história que "cada enxadada era uma minhoca" é coisa do folclore futebolístico. Eram muitas enxadadas, que deixavam os canteiros praticamente destruídos, por isso tinha que fazer em um horário que ela não estava na residência.

                E, depois tentar ajeitar um pouquinho as cenouras, beterrabas e almeirões esparramados.

                Comprava-se mantimentos e muita cachaça (pena que o excesso de bebida acabava com a pescaria de algumas pessoas). Para a molecada fazia suco de groselha, que era colocado em garrafas limpas de leite. Nos dias com temperaturas mais baixas levava-se em garrafas térmicas, café e um pouco de chá de cravo com capim cidreira, para amenizar o frio úmido e cortante da beira do rio.

                Não existia vestimenta específica para a pescaria.

                A minha mãe só me deixava usar uma roupa bem velha, complementada por botinas e um boné.

                O transporte era uma velha Rural do meu tio, que ia apinhada de tralhas e pessoas.

                O almoço era feito no próprio lugar, em uma parte mais afastada do rio, entre as árvores.

                Lembro de uma vez, que El Cid fora encarregado de fazer o almoço, mas cozinhar não era o seu ponto forte... Foi inesquecível... Ele lavou bem os grãos, escorreu, picou cebola e alho e colocou para refogar em uma pequena porção de óleo de milho, junto com o arroz.

                Tanto arroz que quase chegou até a boca da caçarola (era muita gente). Completou com água e ficou observando a sua grande aventura culinária, comigo ao lado, dando uma força.

                Depois de um tempo, vimos que a tampa da panela estava estufando com o arroz crescendo e quase saindo da mesma. Ele não pensou duas vezes: colocou uma pedra em cima da tampa.

                Naquele dia, os peixes foram "cevados" com uma pelota de arroz bem temperadinha e nós passamos a Biscoito Mabel.

                Lembro-me também das várias histórias que El Cid contava, como o dia que ele deu um banho em um tiziu (um passarinho preto, bem pequenininho, que dá pulinhos e emite um som parecido com o seu nome).

                Ele estava pescando lambaris, praticamente imóvel, com aquela varinha bem fininha de bambu, quando um tiziu sentou na ponta dela.

                O bichinho pulava e gritava "tiziu".

                Dava um pulinho e caía no mesmo lugar.

                Aquilo foi incomodando tanto o meu pai, que ele esperou um novo pulinho e tirou a varinha rapidamente.

                Sem o apoio, o passarinho caiu dentro da água e só não se afogou, pois é uma avezinha safada, que adora tomar banho, saindo rapidamente para chacoalhar as penas em um galho de um jambeiro, poucos metros dali.

                Eu adorava ouvir também as histórias de peixes grandes, cobras e assombrações que ele sempre contava. Confesso que eu mesmo nunca tinha presenciado nenhum desses três elementos nas nossas pescarias.

                Além das narrativas, das gargalhadas e da chuva, que sempre nos pegava, fica na minha memória o sabor delicioso dos lambaris (os únicos que pescávamos) bem limpinhos, batidos no fubá e fritos em óleo bem quente.

                Ah, e do Rio Sapucaí Mirim, com as suas curvas e tantos mistérios. 





sexta-feira, 31 de julho de 2020

Quarentena - 31º dia


                Primeiro de maio... Sexta-feira...
                Mais exames e a mesma rotina, a qual ele já estava bem acostumado. Era uma alegria acordar e ir até o quarto de El Cid para ajudá-lo a levantar-se... Às vezes, eu ouvia um "filho, dormi a noite toda" ou um "filho, não dormi quase nada"... A partir da primeira fase dele, eu já sabia o que fazer para deixá-lo mais motivado para as ações do dia.
                Muitas vezes, após a saída da cama e o longo tempo que despendia no banheiro (boa parte do tempo gastava penteando a lisa e rala cabeleira) era o suficiente para eu cortar a fatia de mamão formosa que ele comia toda manhã, passar o café e iniciar a preparação da vitamina de frutas com aveia que complementava o desjejum de todos nós.
                Era gostoso ouvir na boca dele o "Vaninho", que me apelida (um cabra velho, com quase dois metros de altura e mais de cento e dez quilos, sendo tratado no diminutivo é muito estranho)... Até hoje, quando escuto esta forma carinhosa de referência, sei que é parente ou amigo lá de Franca... Todos os outros, me tratam pelo meu nome mesmo: Evanir.
                Inclusive, esta foi sempre uma questão mal resolvida com o meu pai... A escolha do meu nome. Segundo a minha mãe, deveria ter sido Eduardo, mas pelo meu velho ter um amigo de infância que se chamava Evanir e todos o tratavam carinhosamente por "Vaninho" (que o meu pai achava "o máximo"), fui batizado como tal...

                As minhas irmãs tiveram "mais sorte" e receberam nomes comuns, Eliane e Érica: tudo bem que a nossa caçulinha recebeu um "K" no seu nome original que lhe rendeu alguns problemas no período da alfabetização escolar que logo foi trocado pelo "C" do português sem estrangeirismos...
                Em boa parte da minha vida, ou melhor, confesso, até hoje, fico muito incomodado quando alguém me anuncia como mulher... Entendo que a terminação "ir" refere-se mais ao feminino, mas em muitos casos poderia ter sido evitada.

                Imaginem, uma sala de espera de exames lotada, chega uma enfermeira com a ficha na mão e chama a "senhora" Evanir Penna... Levanta um caboclo barbudo de mais de um metro e noventa e barriga na mesma proporção... Todos entreolham-se e muitos, não seguram o sorrisinho maroto. O meu constrangimento só não é maior que o da moça que me chamou. Numa ocasião, foi pior, quando a recepcionista me viu sair da cadeira e perguntou "a senhora Evanir não está contigo, foi ao banheiro?"
                Na adolescência eu era sacaneado diariamente pelos meus amigos, por conta de uma butique que tinha o nome de "Lojinha da Evanir" (com uma florzinha no lugar do pingo da letra "i"). Os caras até mudavam o caminho, só para passarem em frente a ela e me "homenagearem".  Até hoje, quando faço um trajeto que passa pelo antigo local, dou risada (já começo a lembrar ainda no muro do EETC, antes de virar a rua).

                Num aplicativo do IBGE, vi que cerca de 10 mil pessoas têm o meu nome, no Brasil, sendo 80 por cento mulheres. A média de idade dos brasileiros (mais brasileiras) chamados Evanir é de 57 anos.
                Eu sempre brinquei com ele que ter me colocado este nome foi uma grande troça, pois ter sido registrado como Edercides também lá não deveria ter sido tão fácil...

                Sempre ouvíamos as variações sobre o nome, sendo algumas delas bem surreais: Ederleide, Ederclides, Delcides, Ederclives,etc e tal... Nos divertíamos com isso. Fico imaginado como sairia escrito no copo de café da Starbucks... Mas, o seu apelido, Cid, caía bem.

                O meu avô Elpídio, era criativo para nomes, pois o meu tio, irmão do meu pai, chamava-se Erundward... Viu, diferente, né!?

                No site que descrevi quatro parágrafos acima, tentei achar as identificações do meu pai e do meu tio, mas não aparecem, com justificativa que somente têm registro nele, se tiverem mais de 20 pessoas com a mesma denominação. Será que são únicos? Fiquei com essa dúvida.
                Então, tá justificado. Tinha que ser Evanir mesmo e pronto. Com um "p" no Batista (Baptista) e dois enes no Pena (Penna)... Massa demais.
                E assim, modelou-se uma identidade.



quinta-feira, 30 de julho de 2020

Quarentena - 30º dia

                Trinta de abril... Quinta-feira...

                Nas quintas, a Teresa ia para casa ajudar a minha mãe na faxina semanal, mas por conta da pandemia, isso não acontece mais... Então divido o meu tempo, neste dia da semana, entre os cuidados com El Cid e uma força para a minha mãe no varrer, aspirar, lavar e encerar.

                Conversamos sobre a vida no casamento, pois já havia completado um mês que eu estava longe da minha esposa, que ficou em Guarulhos, enquanto eu estava fazendo companhia para o meu pai. Vi que este distanciamento preocupava muito o meu velho... 

                Ele que passou praticamente dois terços da vida dele ao lado da minha mãe, não tinha por hábito distanciar-se dela. Até as viagens eram compartilhadas por todos, influenciando muito as minhas irmãs, que também ao viajarem, levavam junto os meus pais... Era engraçado que a minha mãe sempre se prontificava a ir, adorava passear, mas o "seu Edercides" fazia o charminho característico do "podem ir, eu não estou muito afim de viajar, não"... Claro que sempre ia e era quem mais aproveitava os passeios... 

                Eu, inclusive, aderi a um desses programas de fidelização de viajantes, que nem sempre representam benefícios, mas fiz por conta dos meus progenitores, que sempre amaram as águas termais de Goiás e, com frequência, reclamavam dos custos para passar temporadas, lá... Fiquei sócio temporariamente do Rio Quente Resorts, pois sabia que eles curtiam muito o lugar.

                A nossa última viagem para o Rio Quente havia sido em julho de 2019, para comemorar os 50 anos do casamento dele e da minha mãe, que trocaram festejar em algum buffet por uma semana de convivência conosco, desfrutando de boa comida, tranquilidade e piscinas de águas quentinhas.

                Nestes sete dias, que aproveitamos muito, veio na memória o quanto eles foram companheiros a vida toda, dividindo tarefas domésticas, farturas e carências, a responsabilidade na criação de três filhos, sem perder o respeito mútuo e o amor. 

                Uma das qualidades que eu mais admirava no meu pai era o cavalheirismo e o esmero que tinha ao cuidar da minha mãe, quando saíam para passear. Era um verdadeiro protetor, no sentido estrito da palavra, não só em relação a ela como de todos nós...

                Lembro-me de vê-lo abrir a porta para todos entrarem, nos dar o direito de escolha do lugar que comeríamos, fazer questão de ser o último a se servir, não interromper a conversa da minha mãe, entre tantos outros gestos pequenos que mostravam a grandeza do seu caráter e da sua generosidade.

                Sempre quis ser igual a ele... Acho que, em parte, consigo, já que fui educado pelo exemplo, mas ser de uma outra geração, cuja preocupação com esses detalhes é menor, me faz deslizar no trato com os meus semelhantes.

                Como quase nunca tivemos faxineiras em casa (essa condição é bem recente) todo o serviço doméstico era dividido entre nós e ele também participava ativamente, lavando a louça, o banheiro, a garagem e até aspirando a casa, vez ou outra... Essa divisão de tarefas veio desde a minha infância, pois os meus pais trabalhavam em dois períodos e não conseguiam fazer tudo sozinhos. Acho que passar parte desses compromissos para nós, os filhos, era estratégia de educação.

                Moramos por muito tempo em uma casa construída no quintal dos meus avós, que tinha piso de taco de madeira, que a minha mãe queria sempre brilhando...

                Eu era responsável pela limpeza e manutenção dele... Depois de bem varrido, passava uma cera líquida que não podia ficar muito tempo em contato com a madeira, pois manchava o piso... Então, com um esfregão, tinha que dar o brilho bem rapidamente, mas esse ato fazia com que a minha irmã Eliane, bem pequenininha na época, imaginasse um bom lugar para sentar e deslizar enquanto eu empurrava o pesado objeto que deslizava sobre feltro de tecido... Era uma alegria para ela, mas eu sentia o peso dobrado na hora de polir o chão...

                O meu alívio só veio quando eles compraram uma enceradeira elétrica.



quarta-feira, 29 de julho de 2020

Quarentena - 29º dia

                Vinte e nove de abril... Quarta-feira...
                O grande barato é a felicidade dele quando os netinhos vêm visitá-lo... Parece que ele fica até mais forte... Dá uma alegria imensurável observar como a nossa caçulinha, a Dudinha, curte fazer graça para o meu pai. Ele pede para ela fazer carinho nele e ela atende, prontamente... Gosta de chamar o vovô para passear no quarteirão ou andar de carrinho na praça do bairro... E entende que agora o vovô não pode ir... Daí, pega os seus brinquedos, espalha tudo no chão da sala, onde o meu pai está a maior parte do tempo, nesta fase de convalescência, e fica por horas brincando e tagarelando com ele...
                Ele sempre gostou da presença de crianças e foi muito carinhoso e atencioso conosco, seus filhos.
                Desde o nascimento da Isa, sua primeira netinha, há dez anos, voltamos a ter crianças em casa. Observando a maneira como ele sempre cuidava dos netinhos, lembrou-me muito o amor que eu e as minhas irmãs recebíamos de El Cid, desde quando me “conheço por gente”. Inclusive, a relação do apelido dele, Cid, de Edercides, com o título de "Sidi" (senhor, em árabe dos mouros), mais a relação com o lendário herói ibérico medieval, o genuíno "El Cid", vem da minha imaginação infantil, relacionando-o às proezas do cavaleiro de capa e espada...    

                Tempos depois, pude conhecer a história do mitológico espanhol, em um livro que era do meu próprio pai (uma edição de bolso, parecida com aquelas da saudosa Ediouro, da década de 70) e, daí para frente, o seu "Edercides" transformou-se, para mim, em "El Cid".
                Sempre com a ajuda da minha mãe, ele conseguiu sair do nada e construir uma família digna, com um pequeno patrimônio obtido de maneira totalmente honesta, fruto de um trabalho intenso (junto com a minha mãe, mais uma vez, é importante o reforço), que podemos usufruir até hoje, com prazer e gozo comum.

                Atualmente, vejo muitos pais "superprotetores", tentando criar uma bolha, uma redoma, que possa poupar os filhos de qualquer sofrimento ou frustração. É uma característica dessa nova geração, a qual me enquadro... O objetivo maior deles é afastar as suas crias das características negativas da convivência em sociedade... Se fosse possível, eles só transmitiriam alegrias para a prole... Com El Cid e a minha mãe, dona Elenice, foi diferente...

                A tristeza nos foi apresentada desde cedo e sempre. Cenas ruins e exemplos de desigualdade não nos eram escondidos. A prioridade sempre foi a alegria, mas quando acontecia algum imprevisto desagradável, uma situação frustrante ou até mesmo a morte de parentes ou conhecidos não éramos poupados da conversa ou da sua apresentação, "in loco"... Mostrar-nos o lado triste da vida nunca foi crueldade ou "falta de tato", pelo contrário, tinha a intenção de desenvolver em nós a compaixão e a solidariedade... Na nossa casa constantemente tivemos amor e um senso claro de justiça, mas este lance de enxergar a vida como ela é, de fato, foi fundamental para moldar o nosso caráter... 
Nunca nos deixaram de lado...

                O que um fazia, todos faziam. Sempre viajávamos juntos, jamais ficava alguém para trás. Quando só podia viajar o casal, eles não iam... Ou saíamos todos juntos ou “eles não iam”.
                Ele, junto com a dona Elenice, desenvolveu em nós, o sentido exato do termo "família".
                "Tutu Marambá, não venha mais cá, que o pai da menina te manda pegar..." Assim, dormíamos mais calmos. Sentíamos protegidos... Até pouco tempo atrás, eu já com quase cinquenta anos, um metro e noventa, mais de cem quilos, ao ouvir algum barulho, gritava "paaiii"... Esta sensação de segurança, só mesmo um lendário herói, como El Cid, pode proporcionar...

                 O meu herói, o nosso exemplo visceral.



terça-feira, 28 de julho de 2020

Quarentena - 28º dia

                Vinte e oito de abril... Terça-feira...

                Nesse dia, dividimos um queijo que o meu cunhado Luizmar trouxe da terra natal dele, no final de semana, quando foi visitar a sua família em Sacramento, em Minas Gerais, mas muito próximo da divisa paulista...
                Apesar da pandemia, conseguiu ver os seus parentes e ainda lembrou-se do meu pai, trazendo um queijo da sua cidade natal, que foi premiado anos antes em um concurso na França... Essa iguaria conhecida pela textura macia e sabor marcante é o Senzala, feito na fazenda Caxambu, cujos proprietários têm "Leite" no sobrenome (vi isso no Google e não consigo esquecer).

                O meu pai tinha o dom de conhecer e apreciava muito qualquer tipo de queijo.

                Como já escrevi aqui, ele trabalhou por décadas em uma usina de laticínios que também produzia excelentes peças de Parmesão e Mussarela, na sua unidade localizada em Pedregulho. Era uma alegria quando tinha que se deslocar para lá, pois sempre recebia agrados via lascas desse tipo de laticínio.

                Sempre fazia questão de ter bons queijos em casa e adorava nos presentear com um bom "meia cura" mineiro.

                Quando o acompanhava na feira livre, aos sábados, passava um bom tempo na barraca do Paulo para comprar peças boas e baratas para degustar junto a nós, no final da tarde ou antes de dormir, acompanhado de um copo de café, que nunca atrapalhava o seu sono.

                O Gabriel, seu netinho, puxou ele nesse paladar apurado e sempre ganhava queijos do vovô, mas não comia na casa dele e só comia os do meu pai... Indagado sobre o motivo, o moleque dizia: "o senhor só compra queijo bom para a sua casa, mas para a minha é sempre um ruim".

                A explicação é que ele levava queijo fresco para o neto, com sabor menos marcante, mas muito mais saudável, então o menino preferia, óbvio, o gosto forte do produto curado, que tinha na casa do avô.
                Certa vez, fiz um teste às cegas com ele.
                Comprei vários tipos para ele tentar descobrir a denominação. Tinha Mussarela, Prato, Parmesão, Minas Canastra, Provolone, Gorgonzola e Reino.
                Acertou todos.
                Só tinha dificuldade em lembrar o nome ou reconhecer o sabor de outros mais apurados, geralmente de origem europeia, como o Gouda e o Emmental (ele não gostava do Brie).

                Saudade e resiliência em saber que nunca mais vou poder compartilhar essa experiência com ele.

                Deveria ter escrito esse texto, degustando um pedaço de queijo... Teria sido uma excelente e nostálgica homenagem.



segunda-feira, 27 de julho de 2020

Quarentena - 27º dia


                Vinte e sete de abril... Segunda-feira...
                Segundas são sempre segundas... Parece que o astral de El Cid cai um pouquinho após o final de semana... Não é legal acordar e ver ele reclamando que as pernas estão mais fracas e que, talvez, nunca mais volte a andar sem a ajuda do andador ou de muletas. Isso me incomoda em demasia.
                Dei corda no relógio de parede também.
                É uma tradição de família, este lance de relógio com carrilhão. Todas as casas do lado da parentada paterna tem os seus... Uns mais requintados e estrambólicos, outros menos, mas em todas há a presença do anunciador de horas. O mais antigo está na casa da minha tia, herança do meu avô, que vai ficar comigo. Tem bem mais de cem anos e já não funciona direito, apesar de avaliado em alguns milhares de reais por um antiquário. Não tenho a intenção de vendê-lo, mas não aqui no meu minúsculo apartamento não há um pé direito razoável para pendurá-lo, por isso ele segue no seu local original, lá no bairro da Ponte Grande, em Guarulhos, com promessa de “avisar” ainda mais gerações dos Pennas (já passaram quatro, pela sua voraz caixa de imbuia).
                O do meu pai, é mais novo, com caixa de cerejeira, mais clara, e que anuncia a sua presença a cada quinze minutos... Três badaladas para um quarto de hora, seis para meia hora e assim por diante, sempre finalizando as horas cheias com o total de badaladas extras relativos ao número delas.
                A minha vida inteira vi o meu pai dando corda nele, sempre às quartas-feiras, zeloso para não tirá-lo do prumo e, com isso, não interromper o seu funcionamento. Depois, de parar algumas vezes, adaptamos-o aos domingos, para receber impulsionamento, pois quem irá fazer isso, será o meu cunhado. Mas, como estou por aqui, sou lembrado pelo meu pai para dar corda na segunda de manhã, com os raios solares invadindo a porta de vidro da sala de jantar (que nós, caipiras, chamamos de copa) da casa lá de Franca.
                Seu Edercides tem um outro relógio também, que me foi prometido, mas que só era usado em ocasiões especiais, como jantares em restaurantes, missas e festas mais sociais... É um Technics de pulso, que funciona com o balançar do braço, que muitas vezes, enquanto adolescente foi surrupiado para ser ostentado em alguma ocasião que eu precisasse impressionar alguém (bons tempos que um relógio suíço ainda rendia alguma admiração por uma garota ou amigo).
                Nunca curti muito usar relógio e, hoje, ainda menos, pois com a gatunagem aumentando consideravelmente e o celular com os seus alarmes me avisando até da hora dos remédios e programas televisivos preferidos, ele ficou ainda mais descartável, sem utilidade que não seja decorativa.
                Mesmo assim, ainda tenho nos meus contatos da agenda telefônica, os números de alguns relojoeiros, como o tradicional e conceituadíssimo Olavo, lá de Franca, um dos poucos que confiaria a tarefa de manutenção nos carrilhões da família, sem medo de ser enganado ou ter a substituição indevida de peças, das duas relíquias...
                E, parafraseando o meu sempre bem humorado pai, "não há nada completamente errado no mundo, pois até mesmo um relógio parado, vai estar marcando a hora correta, duas vezes por dia"...



domingo, 26 de julho de 2020

Quarentena - 26º dia

                Vinte e seis de abril... Domingo...

                Sempre no domingo ele acordava melhor.

                O fato de irmos para a chácara, mesmo em plena pandemia, o animava.

                Piadista, era um contador de boas histórias... Adorava relacionar os fatos do cotidiano com os causos dele. Até hoje, quando eu e a minha esposa falamos algo que não é muito espirituoso, mas que tem uma certa graça, cantamos "Seu Edercides lá, laralará, lalá”, imitando a famosa música do Sílvio Santos quando chamava os seus jurados no Programa de Calouros.

                Uma das piadas que ele sempre contava era a da galinha que estava fugindo do alagamento e foi subindo nas partes mais altas do poleiro, depois passou para o telhado da casa e da cumeeira pulou para a antena, mas quando água cobriu tudo e foi chegando já no corpo dela, foi esticando o pescocinho na medida que o seu corpo foi ficando submerso... Daí, quando perguntávamos: "e aí, pai, o que aconteceu", ele arrematava, "ué, ela morreu". E desmanchava-se num largo sorriso, olhando para os lados, esperando a aprovação geral...

                Outra história que eu curtia muito era de um político populista e muito popular nas décadas de 1950 e 1960... Ele adorava contá-la...

                Vou reproduzir aqui, mas vou mudar um pouco a narrativa e usar outros nomes para ele e para as cidades, em questão.

                Como hoje, os candidatos a algum cargo político de antanho, prometiam mundos e fundos, usando uma boa oratória e abusando de estratégias já consolidadas pelo tempo, para conseguir minguados votos que poderiam decidir uma eleição.

                Apesar da farta falácia e de discursos cada vez menos convincentes da maioria deles, nós eleitores, somos protegidos por uma legislação eleitoral, que deixa cada dia mais difícil, o abuso de práticas incoerentes com uma sociedade democrática.
                Inclusive, até na última eleição, continua em grande número, os candidatos folclóricos, que marcam mais pela sua excentricidade do que pelos projetos de governo.
                Meu pai dizia que um deles, estudioso convicto dos métodos populistas das décadas de 40, 50 e 60, principalmente de Getúlio, Ademar de Barros, Juscelino e Jânio, ainda via naquela maneira arcaica de fazer política, uma chance de se eleger a deputado federal.
                Montou vários comitês no interior, fazia carreatas por pequenas cidades, bebia café no copo do eleitor, pegava criancinhas pobres no colo, entre tantas outras estratégias, que ainda são permitidos pelo TRE (por "debaixo do pano", ele ainda conseguia um caminhão de terra, meio metro de areia e outros 'agrados" para um ou outro correligionário mais confiável).
                Com isso, era conhecido em cada vez mais lugares deste interiorzão.
Até que, em um desses dias de intensa campanha, decide aumentar a sua capacidade de atuação.
                Aluga um Cessna, com piloto e tudo, e arma uma estratégia infalível: deslocar-se de avião entre muitas pequenas cidades, fazendo comícios relâmpagos de poucos minutos cada um.
                Decolou bem cedinho, da cidade de São Paulo, e escolheu uma área com dezenas de pequenos municípios, bem próximos entre si.
                Antes do almoço já tinha discursado em seis cidadezinhas.
                Ao descer na sétima, viu que os seus assessores montaram o palanque na pista do próprio aeroporto.
                Economia primordial de tempo!
                Desembarcou rapidamente e já se dirigiu ao microfone:
                - "Povo de Santa Rita..."
                O seu auxiliar, mais que rapidamente, corrigiu o nosso “nobre” candidato, já que Santa Rita, seria a próxima cidade.
                - "Doutor, aqui é Três Porteiras!"
                E o candidato sem pensar, ainda com o microfone aberto:
                - "Ah, é tudo a mesma porcaria" e continuou a fala no parlatório...
                Elegeu-se, mesmo tendo perdido alguns preciosos votos em Três Porteiras!



sábado, 25 de julho de 2020

Quarentena - 25º dia


                Vinte e cinco de abril... Sábado...

                Vendo-o adoçar o café com “meio quilo” de açúcar, brinquei que ele tomava “açúcar com café”.

                El Cid amava qualquer coisa açucarada.

                Então, combinamos com a minha mãe de fazer algumas sobremesas para suavizar o começo entediante desse dia de descanso. Decidimos pelo feitio de doces de mamão e laranja, pois era o que tínhamos trazido da nossa chácara, no último final de semana.

                Quem iniciou o processo foi o meu pai. Sorriso no rosto, contando histórias de um dos principais prazeres dele, que é a degustação de doces caseiros. A minha mãe é uma doceira de mão cheia, uma Cora Coralina, alquimista de sabores e texturas... Sorte nossa.

                Primeiro a laranja da terra, que dá mais trabalho... Rala a casca, coloca num recipiente com água, que é trocada diariamente por quase uma semana... Só depois a cozinha e faz a calda. Por isso, só experimentamos essa iguaria depois de alguns dias.

                Já o doce de mamão leva menos tempo.

                Praticamente, uma “espera de fervura”...
                Meu pai descascava a fruta ainda verde, dentro de uma bacia com água para que o “leite” que ele solta não lhe dê alergia e vai direto para o tacho no fogão, cozinhando mais rápido. A calda é feita com a própria água do seu cozimento, com acréscimo generoso de açúcar, com medida feita “à olho” pela minha mãe. O ponto, até chegar no macio esperado é testado espetando um garfo na fruta.

                A matéria prima sempre saiu da nossa pequena propriedade na cidade de Cristais Paulista. Tudo o que era plantado, lá, tinha potencial para ser adicionado açúcar e virar companhia para um queijinho mineiro “meia cura”.
                O grande barato é que ele adorava dizer que tinha feito o doce, ou então soltar o "foi nós que fizemos", mesmo que só tenha participado na hora de mexer a mistura...

                Em tempos antanhos, eu chegava, entrava em casa e ele já me lembrava: "tem doce disso ou daquilo no freezer... Foi nós que fizemos". A minha mãe só balançava a cabeça e dava risada.
                O barato é que ele não era obeso, tinha uma massa de gordura magra invejável e uma saúde de ferro. Achávamos que ele seria o representante da família que passaria dos cem anos.

                Mas...