Quatorze
de abril... Terça-feira...
Hoje, ele acordou bem mais
animado. Fiz a sua barba, mais uma vez, e conversamos no momento do café da
manhã sobre a sua possibilidade de voltar a dirigir, pois andar tínhamos quase
certeza que seria questão de tempo. Inclusive, no dia que perdeu os movimentos
nas suas pernas, ele estava na chácara, no pomar e, mesmo acompanhado do meu
cunhado, que viu a queda dele, tinha ido dirigindo o seu Classic cinza.
Gostava dessa autonomia de não
precisar de ninguém quando se locomovia pelas ruas de Franca, apesar de não
curtir muito ir para cidades maiores, com mais movimento de veículos.
Era um motorista prudente e muito
chato, aquele tipo que ia narrando o tráfego e o comportamento dos outros
choferes... Quando eu o apelidei de "Galvão Bueno do trânsito", não
gostou muito, pois o narrador global era "persona non grata" para
ele. Tinha tanta ojeriza do Galvão, que assistia os jogos narrados por ele, com
a televisão sem som.
Pela sua desenvoltura e
habilidade ao volante, nem dava para imaginar que só havia sido habilitado para
dirigir com mais de 40 anos, no começo da década de 1980. Inclusive, chegou a
comprar o seu primeiro carro, antes de tirar a CNH.
Em 1978, adquiriu uma Variant
azul, ano 1972.
Deixava-a parada em frente à casa
dos meus avós maternos, na Vila Nova (eu gostava de ficar dentro dela, ouvindo
rádio FM). Não a dirigia e quando precisava utilizá-la, pedia para algum amigo
a conduzir.
Lembro-me que nas nossas idas
para a chácara da tia Geralda, irmã da vó Zilda, com o possante lotado, era o
Chicão, da Casa Paulista que nos levava. Íamos por São José da Bela Vista e um
pouco antes de chegar em São Joaquim da Barra (terra do Rolando Boldrin)
entrávamos na Rodovia Anhanguera, que tinha pista simples. Pegávamos uma fila
de caminhões, com ultrapassagem quase impossível.
Numa dessas viagens, com a
Variant bem cheia - meu pai na frente, o Chicão dirigindo, no banco de trás a
minha mãe com a Érica no colo, o meu avô, a minha avó e na tampa traseira, onde
ficava o motor, a minha irmã Eliane e eu - quase sofremos um acidente.
Estávamos atrás de vários caminhões e outros tantos vinham na nossa retaguarda,
tudo muito organizado, até que, uma carreta, impaciente, sai da sua faixa de
rolamento e tenta ultrapassar vários veículos ao mesmo tempo.
Como não conseguiu, emparelhou-se
conosco e o meu pai percebeu, no ato, a intenção do caminhoneiro: encaixar-se
onde exatamente estávamos. Então, deu um grito para o Chicão, pedindo para ele
jogar o nosso carro para o acostamento o mais rápido possível. Foi só o tempo
de fazer isso e a carreta jogou-se para o nosso lado, tendo a sorte do
motorista do caminhão de trás, também ter saído para a lateral, criando um
espaço que ela pode se encaixar.
Desde então, eu sempre enxerguei
aquela atitude de El Cid, como um ato heroico, salvando toda a nossa família e
o seu amigo.
Passei a ter um super-herói de
carne e osso (mais osso que carne, já que ele era bem magrinho) que, ao invés
de montar um alazão apenas, anos depois passaria a conduzir os 65 cavalos da
sua VW Variant motor 1.600 de dupla carburação e refrigerada a ar...
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