Via Franca

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terça-feira, 14 de julho de 2020

Quarentena - 14º dia

                Quatorze de abril... Terça-feira...

                Hoje, ele acordou bem mais animado. Fiz a sua barba, mais uma vez, e conversamos no momento do café da manhã sobre a sua possibilidade de voltar a dirigir, pois andar tínhamos quase certeza que seria questão de tempo. Inclusive, no dia que perdeu os movimentos nas suas pernas, ele estava na chácara, no pomar e, mesmo acompanhado do meu cunhado, que viu a queda dele, tinha ido dirigindo o seu Classic cinza.

                Gostava dessa autonomia de não precisar de ninguém quando se locomovia pelas ruas de Franca, apesar de não curtir muito ir para cidades maiores, com mais movimento de veículos.

                Era um motorista prudente e muito chato, aquele tipo que ia narrando o tráfego e o comportamento dos outros choferes... Quando eu o apelidei de "Galvão Bueno do trânsito", não gostou muito, pois o narrador global era "persona non grata" para ele. Tinha tanta ojeriza do Galvão, que assistia os jogos narrados por ele, com a televisão sem som.

                Pela sua desenvoltura e habilidade ao volante, nem dava para imaginar que só havia sido habilitado para dirigir com mais de 40 anos, no começo da década de 1980. Inclusive, chegou a comprar o seu primeiro carro, antes de tirar a CNH. 

                Em 1978, adquiriu uma Variant azul, ano 1972.

                Deixava-a parada em frente à casa dos meus avós maternos, na Vila Nova (eu gostava de ficar dentro dela, ouvindo rádio FM). Não a dirigia e quando precisava utilizá-la, pedia para algum amigo a conduzir.

                Lembro-me que nas nossas idas para a chácara da tia Geralda, irmã da vó Zilda, com o possante lotado, era o Chicão, da Casa Paulista que nos levava. Íamos por São José da Bela Vista e um pouco antes de chegar em São Joaquim da Barra (terra do Rolando Boldrin) entrávamos na Rodovia Anhanguera, que tinha pista simples. Pegávamos uma fila de caminhões, com ultrapassagem quase impossível. 

                Numa dessas viagens, com a Variant bem cheia - meu pai na frente, o Chicão dirigindo, no banco de trás a minha mãe com a Érica no colo, o meu avô, a minha avó e na tampa traseira, onde ficava o motor, a minha irmã Eliane e eu - quase sofremos um acidente. Estávamos atrás de vários caminhões e outros tantos vinham na nossa retaguarda, tudo muito organizado, até que, uma carreta, impaciente, sai da sua faixa de rolamento e tenta ultrapassar vários veículos ao mesmo tempo.

                Como não conseguiu, emparelhou-se conosco e o meu pai percebeu, no ato, a intenção do caminhoneiro: encaixar-se onde exatamente estávamos. Então, deu um grito para o Chicão, pedindo para ele jogar o nosso carro para o acostamento o mais rápido possível. Foi só o tempo de fazer isso e a carreta jogou-se para o nosso lado, tendo a sorte do motorista do caminhão de trás, também ter saído para a lateral, criando um espaço que ela pode se encaixar.

                Desde então, eu sempre enxerguei aquela atitude de El Cid, como um ato heroico, salvando toda a nossa família e o seu amigo.

                Passei a ter um super-herói de carne e osso (mais osso que carne, já que ele era bem magrinho) que, ao invés de montar um alazão apenas, anos depois passaria a conduzir os 65 cavalos da sua VW Variant motor 1.600 de dupla carburação e refrigerada a ar...

                Pense num filho orgulhoso.


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