Doze de abril... Domingo...
Domingo,
como sempre, dia de reunião familiar na chácara dos meus pais... E hoje, ele
está mais animado.
Já
tivemos vários animais, mesmo a contragosto da minha mãe que nunca gostou muito
de criações, a não ser dos frangos e galinhas para consumo de ovos e carne...
Quando pequeno, "herdamos" de um tio que se mudou de Franca para
Campinas, um pássaro preto criado desde filhote em uma pequena gaiola, que
deixava apenas o meu pai fazer cafuné na sua cabeça (tinha que chamá-lo dizendo
que ia "catar piolho") e que sempre derrubava o potinho de água,
depois de tomar banho nele. Tivemos também um "cachorro comunitário",
que vivia conosco na rua e dormia uma noite em cada quintal, pois a minha mãe e
as dos meus amigos não aceitavam que criássemos um... Quando éramos perguntados
sobre o motivo daquele “cachorro estar no quintal”, sempre dizíamos que ele era
do outro moleque e que estaria ali só por aquela noite (muito tempo depois, meu
pai me disse que ele sacava aquele nosso lance, mas não tinha coragem de nos
"entregar")...
Um traço muito legal do seu Edercides era esse: a facilidade de interação com os bichos de pelos, penas e escamas... Sempre tivemos galos e galinhas na chácara que acompanhavam ele por toda a parte. Nunca vi uma pessoa que chegava perto dos passarinhos, aqueles livres, soltos, sem espantá-los... Eles viam o meu pai e se aproximavam. E ele conversava com eles... Eu brincava que para ele colocar quirela de milho para os canarinhos da terra, perto da horta, tinha que esconder o pote, pois os bichinhos quase avançavam sobre a comida, antes dele colocá-la no cochinho improvisado em um pedaço de bambu... Quando eu me aproximava, eles voavam rapidamente, pousando em árvores bem distantes.
Uma das preocupações dele, passando a incumbência para a minha irmã caçula, era de continuar a alimentar os "bichos da chácara" (a bambeza das pernas já não o permitia de se aventurar pelos meandros do pomar e da horta).
O barato é que mesmo quieto, sem se locomover por outros cantos da propriedade o "galo Chico" o seu fiel escudeiro sempre ficava ao seu lado, passando o dia à la "Sancho Pança"...
Teve até a pachorra de montar uma caixinha num armário velho
da varanda da nossa casa, para acomodar um enxame de arapuás que apareceu lá.
Ele se refere a elas como "minhas abelhas"...
O
amor dele é visível nestas relações com os bichos... Nos ensinou a amar,
respeitar e conviver, na prática, com exemplos cotidianos.
E aquele passarinho do começo
desse texto, que herdou do seu irmão, foi o único que manteve preso. Nunca mais
permitiu que ninguém aprisionasse numa gaiola, nenhum animal em algum lugar que
estivesse sob sua tutela.

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