Via Franca

Via Franca

sábado, 18 de julho de 2020

Quarentena - 18º dia

Dezoito de abril... Sábado...
Sábado sempre foi dia de ir à feira, na estação...
Conversei com ele sobre a possibilidade de ir de carro e percorrer um pequeno trecho com uma cadeira de rodas que pediria emprestada a alguém, quando a pandemia arrefecesse (tínhamos essa esperança)... Negou, pois não gostaria que ninguém o visse naquele estado. Iria somente quando estivesse totalmente curado e caminhando normalmente (também "tínhamos essa esperança") 
E ir na feira, era um evento, pois quando ele me convidava para acompanhá-lo, vinha com a tradicional frase: "é só meia horinha", mas demorávamos horas entre barracas, desfrutes de iguarias que experimentávamos, longas conversas com os conhecidos que estavam por lá e brincadeiras na tenda de queijos do Paulo e da Maria Tereza (lá, o valor da peça do "canastra", para ele, sempre deveria ser dezenove reais, mesmo quando o "preço de balcão" já estava bem maior do que isso).
Eu falava que ele deveria ser candidato a vereador, pois conhecia todo mundo e constantemente tinha uma brincadeira ou lembrança do passado das pessoas que topava (e quando não encontrava, brincava, "será que morreu?").
O pastel era de praxe... Queijo para ele e carne para mim, acompanhado de refrigerante de guaraná (Antárctica, sempre)...
Gostava também da barraca de verduras. escolhia jilós, vagens, batatas, cenouras, chuchus, alfaces e tudo mais com uma paciência incrível. Sempre conversando com a senhorinha, dona da banca ou com os outros clientes que "vibravam na mesma energia".
Na época do milho, sempre lembrava do período que estava aprendendo a dirigir. Chamava o Renil, um amigo, e me levava junto na Variant azul por vias de terra nos arredores de Franca. Claro, que o caminho era minuciosamente estudado para percorrer estradas vicinais entre volumosos milharais. Em certo momento, eles paravam, tiravam o estepe, me deixavam como vigia e metiam-se dentro da plantação. Só voltavam quando tinham os dois braços carregados de milho verde. minha mãe ficava brava com isso, mas na lógica de El Cid não era furto, pois havia bastante. 
Como eu vivia nos quintais alheios buscando frutas maduras, jamais julguei o meu pai por isso.
Esse lance de me levar sempre junto, além de criar uma relação de cumplicidade que nunca terminou, me fez também ser atento e observador. Eu amava, quando muito pequeno, ele me colocava na garupa da bicicleta e íamos até uma pista de aviação que existia onde hoje é o Distrito Industrial da nossa cidade. No caminho, íamos parando em vários pontos para colher gabirobas, jambos, araçás, cagaitas, macaúbas e outras frutas do cerrado francano, que variavam conforme a estação (confesso que a minha preferida era a gabiroba, minúscula, com sua coloração amarelada e sabor entre o adocicado e o azedinho). 
Nos finais de semana também dava caminhadas mais longas com um poodle que tivemos por 15 anos. O nome desse nosso cachorrinho era Zuzu e amava o meu pai. Era muito mimado pela minha mãe e, por isso, parecia uma criança, em muitos aspectos. Certa vez, alguém pisou na patinha dele, mas não machucou, então para chamar a atenção, ele começava a mancar assim que via a dona Elenice, que o pegava no colo e enchia de carinho. Quando ela estava longe, voltava a andar normalmente e até corria todo pimpão. Daí, meu pai, o apelidou de "Joselito", pois lembrou de uma história de um caminhoneiro da empresa que ele trabalhava que sofreu um acidente, mas só mancava quando entrava na firma. Como era nosso vizinho, o seu José (óbvio, que este nome é fictício, pois não quero confusão com a família dele) era visto andando normalmente pelas ruas do bairro, principalmente no Bar do Mané Gago. Só cambaleava, sem mancar, depois que saía de lá.


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