Via Franca

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sexta-feira, 31 de julho de 2020

Quarentena - 31º dia


                Primeiro de maio... Sexta-feira...
                Mais exames e a mesma rotina, a qual ele já estava bem acostumado. Era uma alegria acordar e ir até o quarto de El Cid para ajudá-lo a levantar-se... Às vezes, eu ouvia um "filho, dormi a noite toda" ou um "filho, não dormi quase nada"... A partir da primeira fase dele, eu já sabia o que fazer para deixá-lo mais motivado para as ações do dia.
                Muitas vezes, após a saída da cama e o longo tempo que despendia no banheiro (boa parte do tempo gastava penteando a lisa e rala cabeleira) era o suficiente para eu cortar a fatia de mamão formosa que ele comia toda manhã, passar o café e iniciar a preparação da vitamina de frutas com aveia que complementava o desjejum de todos nós.
                Era gostoso ouvir na boca dele o "Vaninho", que me apelida (um cabra velho, com quase dois metros de altura e mais de cento e dez quilos, sendo tratado no diminutivo é muito estranho)... Até hoje, quando escuto esta forma carinhosa de referência, sei que é parente ou amigo lá de Franca... Todos os outros, me tratam pelo meu nome mesmo: Evanir.
                Inclusive, esta foi sempre uma questão mal resolvida com o meu pai... A escolha do meu nome. Segundo a minha mãe, deveria ter sido Eduardo, mas pelo meu velho ter um amigo de infância que se chamava Evanir e todos o tratavam carinhosamente por "Vaninho" (que o meu pai achava "o máximo"), fui batizado como tal...

                As minhas irmãs tiveram "mais sorte" e receberam nomes comuns, Eliane e Érica: tudo bem que a nossa caçulinha recebeu um "K" no seu nome original que lhe rendeu alguns problemas no período da alfabetização escolar que logo foi trocado pelo "C" do português sem estrangeirismos...
                Em boa parte da minha vida, ou melhor, confesso, até hoje, fico muito incomodado quando alguém me anuncia como mulher... Entendo que a terminação "ir" refere-se mais ao feminino, mas em muitos casos poderia ter sido evitada.

                Imaginem, uma sala de espera de exames lotada, chega uma enfermeira com a ficha na mão e chama a "senhora" Evanir Penna... Levanta um caboclo barbudo de mais de um metro e noventa e barriga na mesma proporção... Todos entreolham-se e muitos, não seguram o sorrisinho maroto. O meu constrangimento só não é maior que o da moça que me chamou. Numa ocasião, foi pior, quando a recepcionista me viu sair da cadeira e perguntou "a senhora Evanir não está contigo, foi ao banheiro?"
                Na adolescência eu era sacaneado diariamente pelos meus amigos, por conta de uma butique que tinha o nome de "Lojinha da Evanir" (com uma florzinha no lugar do pingo da letra "i"). Os caras até mudavam o caminho, só para passarem em frente a ela e me "homenagearem".  Até hoje, quando faço um trajeto que passa pelo antigo local, dou risada (já começo a lembrar ainda no muro do EETC, antes de virar a rua).

                Num aplicativo do IBGE, vi que cerca de 10 mil pessoas têm o meu nome, no Brasil, sendo 80 por cento mulheres. A média de idade dos brasileiros (mais brasileiras) chamados Evanir é de 57 anos.
                Eu sempre brinquei com ele que ter me colocado este nome foi uma grande troça, pois ter sido registrado como Edercides também lá não deveria ter sido tão fácil...

                Sempre ouvíamos as variações sobre o nome, sendo algumas delas bem surreais: Ederleide, Ederclides, Delcides, Ederclives,etc e tal... Nos divertíamos com isso. Fico imaginado como sairia escrito no copo de café da Starbucks... Mas, o seu apelido, Cid, caía bem.

                O meu avô Elpídio, era criativo para nomes, pois o meu tio, irmão do meu pai, chamava-se Erundward... Viu, diferente, né!?

                No site que descrevi quatro parágrafos acima, tentei achar as identificações do meu pai e do meu tio, mas não aparecem, com justificativa que somente têm registro nele, se tiverem mais de 20 pessoas com a mesma denominação. Será que são únicos? Fiquei com essa dúvida.
                Então, tá justificado. Tinha que ser Evanir mesmo e pronto. Com um "p" no Batista (Baptista) e dois enes no Pena (Penna)... Massa demais.
                E assim, modelou-se uma identidade.



quinta-feira, 30 de julho de 2020

Quarentena - 30º dia

                Trinta de abril... Quinta-feira...

                Nas quintas, a Teresa ia para casa ajudar a minha mãe na faxina semanal, mas por conta da pandemia, isso não acontece mais... Então divido o meu tempo, neste dia da semana, entre os cuidados com El Cid e uma força para a minha mãe no varrer, aspirar, lavar e encerar.

                Conversamos sobre a vida no casamento, pois já havia completado um mês que eu estava longe da minha esposa, que ficou em Guarulhos, enquanto eu estava fazendo companhia para o meu pai. Vi que este distanciamento preocupava muito o meu velho... 

                Ele que passou praticamente dois terços da vida dele ao lado da minha mãe, não tinha por hábito distanciar-se dela. Até as viagens eram compartilhadas por todos, influenciando muito as minhas irmãs, que também ao viajarem, levavam junto os meus pais... Era engraçado que a minha mãe sempre se prontificava a ir, adorava passear, mas o "seu Edercides" fazia o charminho característico do "podem ir, eu não estou muito afim de viajar, não"... Claro que sempre ia e era quem mais aproveitava os passeios... 

                Eu, inclusive, aderi a um desses programas de fidelização de viajantes, que nem sempre representam benefícios, mas fiz por conta dos meus progenitores, que sempre amaram as águas termais de Goiás e, com frequência, reclamavam dos custos para passar temporadas, lá... Fiquei sócio temporariamente do Rio Quente Resorts, pois sabia que eles curtiam muito o lugar.

                A nossa última viagem para o Rio Quente havia sido em julho de 2019, para comemorar os 50 anos do casamento dele e da minha mãe, que trocaram festejar em algum buffet por uma semana de convivência conosco, desfrutando de boa comida, tranquilidade e piscinas de águas quentinhas.

                Nestes sete dias, que aproveitamos muito, veio na memória o quanto eles foram companheiros a vida toda, dividindo tarefas domésticas, farturas e carências, a responsabilidade na criação de três filhos, sem perder o respeito mútuo e o amor. 

                Uma das qualidades que eu mais admirava no meu pai era o cavalheirismo e o esmero que tinha ao cuidar da minha mãe, quando saíam para passear. Era um verdadeiro protetor, no sentido estrito da palavra, não só em relação a ela como de todos nós...

                Lembro-me de vê-lo abrir a porta para todos entrarem, nos dar o direito de escolha do lugar que comeríamos, fazer questão de ser o último a se servir, não interromper a conversa da minha mãe, entre tantos outros gestos pequenos que mostravam a grandeza do seu caráter e da sua generosidade.

                Sempre quis ser igual a ele... Acho que, em parte, consigo, já que fui educado pelo exemplo, mas ser de uma outra geração, cuja preocupação com esses detalhes é menor, me faz deslizar no trato com os meus semelhantes.

                Como quase nunca tivemos faxineiras em casa (essa condição é bem recente) todo o serviço doméstico era dividido entre nós e ele também participava ativamente, lavando a louça, o banheiro, a garagem e até aspirando a casa, vez ou outra... Essa divisão de tarefas veio desde a minha infância, pois os meus pais trabalhavam em dois períodos e não conseguiam fazer tudo sozinhos. Acho que passar parte desses compromissos para nós, os filhos, era estratégia de educação.

                Moramos por muito tempo em uma casa construída no quintal dos meus avós, que tinha piso de taco de madeira, que a minha mãe queria sempre brilhando...

                Eu era responsável pela limpeza e manutenção dele... Depois de bem varrido, passava uma cera líquida que não podia ficar muito tempo em contato com a madeira, pois manchava o piso... Então, com um esfregão, tinha que dar o brilho bem rapidamente, mas esse ato fazia com que a minha irmã Eliane, bem pequenininha na época, imaginasse um bom lugar para sentar e deslizar enquanto eu empurrava o pesado objeto que deslizava sobre feltro de tecido... Era uma alegria para ela, mas eu sentia o peso dobrado na hora de polir o chão...

                O meu alívio só veio quando eles compraram uma enceradeira elétrica.



quarta-feira, 29 de julho de 2020

Quarentena - 29º dia

                Vinte e nove de abril... Quarta-feira...
                O grande barato é a felicidade dele quando os netinhos vêm visitá-lo... Parece que ele fica até mais forte... Dá uma alegria imensurável observar como a nossa caçulinha, a Dudinha, curte fazer graça para o meu pai. Ele pede para ela fazer carinho nele e ela atende, prontamente... Gosta de chamar o vovô para passear no quarteirão ou andar de carrinho na praça do bairro... E entende que agora o vovô não pode ir... Daí, pega os seus brinquedos, espalha tudo no chão da sala, onde o meu pai está a maior parte do tempo, nesta fase de convalescência, e fica por horas brincando e tagarelando com ele...
                Ele sempre gostou da presença de crianças e foi muito carinhoso e atencioso conosco, seus filhos.
                Desde o nascimento da Isa, sua primeira netinha, há dez anos, voltamos a ter crianças em casa. Observando a maneira como ele sempre cuidava dos netinhos, lembrou-me muito o amor que eu e as minhas irmãs recebíamos de El Cid, desde quando me “conheço por gente”. Inclusive, a relação do apelido dele, Cid, de Edercides, com o título de "Sidi" (senhor, em árabe dos mouros), mais a relação com o lendário herói ibérico medieval, o genuíno "El Cid", vem da minha imaginação infantil, relacionando-o às proezas do cavaleiro de capa e espada...    

                Tempos depois, pude conhecer a história do mitológico espanhol, em um livro que era do meu próprio pai (uma edição de bolso, parecida com aquelas da saudosa Ediouro, da década de 70) e, daí para frente, o seu "Edercides" transformou-se, para mim, em "El Cid".
                Sempre com a ajuda da minha mãe, ele conseguiu sair do nada e construir uma família digna, com um pequeno patrimônio obtido de maneira totalmente honesta, fruto de um trabalho intenso (junto com a minha mãe, mais uma vez, é importante o reforço), que podemos usufruir até hoje, com prazer e gozo comum.

                Atualmente, vejo muitos pais "superprotetores", tentando criar uma bolha, uma redoma, que possa poupar os filhos de qualquer sofrimento ou frustração. É uma característica dessa nova geração, a qual me enquadro... O objetivo maior deles é afastar as suas crias das características negativas da convivência em sociedade... Se fosse possível, eles só transmitiriam alegrias para a prole... Com El Cid e a minha mãe, dona Elenice, foi diferente...

                A tristeza nos foi apresentada desde cedo e sempre. Cenas ruins e exemplos de desigualdade não nos eram escondidos. A prioridade sempre foi a alegria, mas quando acontecia algum imprevisto desagradável, uma situação frustrante ou até mesmo a morte de parentes ou conhecidos não éramos poupados da conversa ou da sua apresentação, "in loco"... Mostrar-nos o lado triste da vida nunca foi crueldade ou "falta de tato", pelo contrário, tinha a intenção de desenvolver em nós a compaixão e a solidariedade... Na nossa casa constantemente tivemos amor e um senso claro de justiça, mas este lance de enxergar a vida como ela é, de fato, foi fundamental para moldar o nosso caráter... 
Nunca nos deixaram de lado...

                O que um fazia, todos faziam. Sempre viajávamos juntos, jamais ficava alguém para trás. Quando só podia viajar o casal, eles não iam... Ou saíamos todos juntos ou “eles não iam”.
                Ele, junto com a dona Elenice, desenvolveu em nós, o sentido exato do termo "família".
                "Tutu Marambá, não venha mais cá, que o pai da menina te manda pegar..." Assim, dormíamos mais calmos. Sentíamos protegidos... Até pouco tempo atrás, eu já com quase cinquenta anos, um metro e noventa, mais de cem quilos, ao ouvir algum barulho, gritava "paaiii"... Esta sensação de segurança, só mesmo um lendário herói, como El Cid, pode proporcionar...

                 O meu herói, o nosso exemplo visceral.



terça-feira, 28 de julho de 2020

Quarentena - 28º dia

                Vinte e oito de abril... Terça-feira...

                Nesse dia, dividimos um queijo que o meu cunhado Luizmar trouxe da terra natal dele, no final de semana, quando foi visitar a sua família em Sacramento, em Minas Gerais, mas muito próximo da divisa paulista...
                Apesar da pandemia, conseguiu ver os seus parentes e ainda lembrou-se do meu pai, trazendo um queijo da sua cidade natal, que foi premiado anos antes em um concurso na França... Essa iguaria conhecida pela textura macia e sabor marcante é o Senzala, feito na fazenda Caxambu, cujos proprietários têm "Leite" no sobrenome (vi isso no Google e não consigo esquecer).

                O meu pai tinha o dom de conhecer e apreciava muito qualquer tipo de queijo.

                Como já escrevi aqui, ele trabalhou por décadas em uma usina de laticínios que também produzia excelentes peças de Parmesão e Mussarela, na sua unidade localizada em Pedregulho. Era uma alegria quando tinha que se deslocar para lá, pois sempre recebia agrados via lascas desse tipo de laticínio.

                Sempre fazia questão de ter bons queijos em casa e adorava nos presentear com um bom "meia cura" mineiro.

                Quando o acompanhava na feira livre, aos sábados, passava um bom tempo na barraca do Paulo para comprar peças boas e baratas para degustar junto a nós, no final da tarde ou antes de dormir, acompanhado de um copo de café, que nunca atrapalhava o seu sono.

                O Gabriel, seu netinho, puxou ele nesse paladar apurado e sempre ganhava queijos do vovô, mas não comia na casa dele e só comia os do meu pai... Indagado sobre o motivo, o moleque dizia: "o senhor só compra queijo bom para a sua casa, mas para a minha é sempre um ruim".

                A explicação é que ele levava queijo fresco para o neto, com sabor menos marcante, mas muito mais saudável, então o menino preferia, óbvio, o gosto forte do produto curado, que tinha na casa do avô.
                Certa vez, fiz um teste às cegas com ele.
                Comprei vários tipos para ele tentar descobrir a denominação. Tinha Mussarela, Prato, Parmesão, Minas Canastra, Provolone, Gorgonzola e Reino.
                Acertou todos.
                Só tinha dificuldade em lembrar o nome ou reconhecer o sabor de outros mais apurados, geralmente de origem europeia, como o Gouda e o Emmental (ele não gostava do Brie).

                Saudade e resiliência em saber que nunca mais vou poder compartilhar essa experiência com ele.

                Deveria ter escrito esse texto, degustando um pedaço de queijo... Teria sido uma excelente e nostálgica homenagem.



segunda-feira, 27 de julho de 2020

Quarentena - 27º dia


                Vinte e sete de abril... Segunda-feira...
                Segundas são sempre segundas... Parece que o astral de El Cid cai um pouquinho após o final de semana... Não é legal acordar e ver ele reclamando que as pernas estão mais fracas e que, talvez, nunca mais volte a andar sem a ajuda do andador ou de muletas. Isso me incomoda em demasia.
                Dei corda no relógio de parede também.
                É uma tradição de família, este lance de relógio com carrilhão. Todas as casas do lado da parentada paterna tem os seus... Uns mais requintados e estrambólicos, outros menos, mas em todas há a presença do anunciador de horas. O mais antigo está na casa da minha tia, herança do meu avô, que vai ficar comigo. Tem bem mais de cem anos e já não funciona direito, apesar de avaliado em alguns milhares de reais por um antiquário. Não tenho a intenção de vendê-lo, mas não aqui no meu minúsculo apartamento não há um pé direito razoável para pendurá-lo, por isso ele segue no seu local original, lá no bairro da Ponte Grande, em Guarulhos, com promessa de “avisar” ainda mais gerações dos Pennas (já passaram quatro, pela sua voraz caixa de imbuia).
                O do meu pai, é mais novo, com caixa de cerejeira, mais clara, e que anuncia a sua presença a cada quinze minutos... Três badaladas para um quarto de hora, seis para meia hora e assim por diante, sempre finalizando as horas cheias com o total de badaladas extras relativos ao número delas.
                A minha vida inteira vi o meu pai dando corda nele, sempre às quartas-feiras, zeloso para não tirá-lo do prumo e, com isso, não interromper o seu funcionamento. Depois, de parar algumas vezes, adaptamos-o aos domingos, para receber impulsionamento, pois quem irá fazer isso, será o meu cunhado. Mas, como estou por aqui, sou lembrado pelo meu pai para dar corda na segunda de manhã, com os raios solares invadindo a porta de vidro da sala de jantar (que nós, caipiras, chamamos de copa) da casa lá de Franca.
                Seu Edercides tem um outro relógio também, que me foi prometido, mas que só era usado em ocasiões especiais, como jantares em restaurantes, missas e festas mais sociais... É um Technics de pulso, que funciona com o balançar do braço, que muitas vezes, enquanto adolescente foi surrupiado para ser ostentado em alguma ocasião que eu precisasse impressionar alguém (bons tempos que um relógio suíço ainda rendia alguma admiração por uma garota ou amigo).
                Nunca curti muito usar relógio e, hoje, ainda menos, pois com a gatunagem aumentando consideravelmente e o celular com os seus alarmes me avisando até da hora dos remédios e programas televisivos preferidos, ele ficou ainda mais descartável, sem utilidade que não seja decorativa.
                Mesmo assim, ainda tenho nos meus contatos da agenda telefônica, os números de alguns relojoeiros, como o tradicional e conceituadíssimo Olavo, lá de Franca, um dos poucos que confiaria a tarefa de manutenção nos carrilhões da família, sem medo de ser enganado ou ter a substituição indevida de peças, das duas relíquias...
                E, parafraseando o meu sempre bem humorado pai, "não há nada completamente errado no mundo, pois até mesmo um relógio parado, vai estar marcando a hora correta, duas vezes por dia"...



domingo, 26 de julho de 2020

Quarentena - 26º dia

                Vinte e seis de abril... Domingo...

                Sempre no domingo ele acordava melhor.

                O fato de irmos para a chácara, mesmo em plena pandemia, o animava.

                Piadista, era um contador de boas histórias... Adorava relacionar os fatos do cotidiano com os causos dele. Até hoje, quando eu e a minha esposa falamos algo que não é muito espirituoso, mas que tem uma certa graça, cantamos "Seu Edercides lá, laralará, lalá”, imitando a famosa música do Sílvio Santos quando chamava os seus jurados no Programa de Calouros.

                Uma das piadas que ele sempre contava era a da galinha que estava fugindo do alagamento e foi subindo nas partes mais altas do poleiro, depois passou para o telhado da casa e da cumeeira pulou para a antena, mas quando água cobriu tudo e foi chegando já no corpo dela, foi esticando o pescocinho na medida que o seu corpo foi ficando submerso... Daí, quando perguntávamos: "e aí, pai, o que aconteceu", ele arrematava, "ué, ela morreu". E desmanchava-se num largo sorriso, olhando para os lados, esperando a aprovação geral...

                Outra história que eu curtia muito era de um político populista e muito popular nas décadas de 1950 e 1960... Ele adorava contá-la...

                Vou reproduzir aqui, mas vou mudar um pouco a narrativa e usar outros nomes para ele e para as cidades, em questão.

                Como hoje, os candidatos a algum cargo político de antanho, prometiam mundos e fundos, usando uma boa oratória e abusando de estratégias já consolidadas pelo tempo, para conseguir minguados votos que poderiam decidir uma eleição.

                Apesar da farta falácia e de discursos cada vez menos convincentes da maioria deles, nós eleitores, somos protegidos por uma legislação eleitoral, que deixa cada dia mais difícil, o abuso de práticas incoerentes com uma sociedade democrática.
                Inclusive, até na última eleição, continua em grande número, os candidatos folclóricos, que marcam mais pela sua excentricidade do que pelos projetos de governo.
                Meu pai dizia que um deles, estudioso convicto dos métodos populistas das décadas de 40, 50 e 60, principalmente de Getúlio, Ademar de Barros, Juscelino e Jânio, ainda via naquela maneira arcaica de fazer política, uma chance de se eleger a deputado federal.
                Montou vários comitês no interior, fazia carreatas por pequenas cidades, bebia café no copo do eleitor, pegava criancinhas pobres no colo, entre tantas outras estratégias, que ainda são permitidos pelo TRE (por "debaixo do pano", ele ainda conseguia um caminhão de terra, meio metro de areia e outros 'agrados" para um ou outro correligionário mais confiável).
                Com isso, era conhecido em cada vez mais lugares deste interiorzão.
Até que, em um desses dias de intensa campanha, decide aumentar a sua capacidade de atuação.
                Aluga um Cessna, com piloto e tudo, e arma uma estratégia infalível: deslocar-se de avião entre muitas pequenas cidades, fazendo comícios relâmpagos de poucos minutos cada um.
                Decolou bem cedinho, da cidade de São Paulo, e escolheu uma área com dezenas de pequenos municípios, bem próximos entre si.
                Antes do almoço já tinha discursado em seis cidadezinhas.
                Ao descer na sétima, viu que os seus assessores montaram o palanque na pista do próprio aeroporto.
                Economia primordial de tempo!
                Desembarcou rapidamente e já se dirigiu ao microfone:
                - "Povo de Santa Rita..."
                O seu auxiliar, mais que rapidamente, corrigiu o nosso “nobre” candidato, já que Santa Rita, seria a próxima cidade.
                - "Doutor, aqui é Três Porteiras!"
                E o candidato sem pensar, ainda com o microfone aberto:
                - "Ah, é tudo a mesma porcaria" e continuou a fala no parlatório...
                Elegeu-se, mesmo tendo perdido alguns preciosos votos em Três Porteiras!



sábado, 25 de julho de 2020

Quarentena - 25º dia


                Vinte e cinco de abril... Sábado...

                Vendo-o adoçar o café com “meio quilo” de açúcar, brinquei que ele tomava “açúcar com café”.

                El Cid amava qualquer coisa açucarada.

                Então, combinamos com a minha mãe de fazer algumas sobremesas para suavizar o começo entediante desse dia de descanso. Decidimos pelo feitio de doces de mamão e laranja, pois era o que tínhamos trazido da nossa chácara, no último final de semana.

                Quem iniciou o processo foi o meu pai. Sorriso no rosto, contando histórias de um dos principais prazeres dele, que é a degustação de doces caseiros. A minha mãe é uma doceira de mão cheia, uma Cora Coralina, alquimista de sabores e texturas... Sorte nossa.

                Primeiro a laranja da terra, que dá mais trabalho... Rala a casca, coloca num recipiente com água, que é trocada diariamente por quase uma semana... Só depois a cozinha e faz a calda. Por isso, só experimentamos essa iguaria depois de alguns dias.

                Já o doce de mamão leva menos tempo.

                Praticamente, uma “espera de fervura”...
                Meu pai descascava a fruta ainda verde, dentro de uma bacia com água para que o “leite” que ele solta não lhe dê alergia e vai direto para o tacho no fogão, cozinhando mais rápido. A calda é feita com a própria água do seu cozimento, com acréscimo generoso de açúcar, com medida feita “à olho” pela minha mãe. O ponto, até chegar no macio esperado é testado espetando um garfo na fruta.

                A matéria prima sempre saiu da nossa pequena propriedade na cidade de Cristais Paulista. Tudo o que era plantado, lá, tinha potencial para ser adicionado açúcar e virar companhia para um queijinho mineiro “meia cura”.
                O grande barato é que ele adorava dizer que tinha feito o doce, ou então soltar o "foi nós que fizemos", mesmo que só tenha participado na hora de mexer a mistura...

                Em tempos antanhos, eu chegava, entrava em casa e ele já me lembrava: "tem doce disso ou daquilo no freezer... Foi nós que fizemos". A minha mãe só balançava a cabeça e dava risada.
                O barato é que ele não era obeso, tinha uma massa de gordura magra invejável e uma saúde de ferro. Achávamos que ele seria o representante da família que passaria dos cem anos.

                Mas...




sexta-feira, 24 de julho de 2020

Quarentena - 24º dia


                Vinte e quatro de abril... Sexta-feira...
                O dia começou com menos dor, mais esperanças dele voltar a caminhar sem a ajuda de muletas ou do andador.
                O meu pai nunca foi muito de ir ao médico... Sempre foi sistemático com dores e doenças. Raramente o víamos reclamar de algo, neste sentido.
                Lembro-me, quando criança, que ele foi ao dentista arrancar todos os dentes, por conta de uma nevralgia... Que curava qualquer ferida com iodo e acabava com piolhos usando Neocid (veneno para formigas) nas nossas cabeças.
Ainda me lembro do olhar dele para mim, quando uma ex-namorada observou que as canelas dele estavam com a pele muito seca e se ofereceu para passar um creme hidratante.
                Eu fui o oposto dele... Desde criança sempre fui de médicos e doenças... Um moleque fraco para essas coisas. Bronquite, rinite, sinusite, resfriados mil...
                Hoje, imagino quantos perrengues os meus pais passaram comigo. Por várias vezes, as madrugadas deles eram no pronto socorro e no outro dia bem cedo, já teriam que trabalhar, cumprindo horários e funções. Sou grato a eles...
                Por isso, quando tive que cuidar do meu velhinho, ajudando-o a tomar banho, a se barbear, fazendo vezes de enfermeiro e até amparando-o para evitar quedas, senti-me estranho... Eu não estava preparado para isso (acho que ninguém nunca está). Ainda hoje o grito de "me segura, filho" de uma quase queda dele, me machuca a consciência... Quem sempre me amparou e segurou foi El Cid, não o contrário...
                A gente se prepara para muitas coisas na vida, mas para outras nos guardamos, fingimos que nunca irão acontecer, daí o sofrimento é maior...

                Mesmo fragilizado, a imagem que fica na minha memória é daquele herói, com a sua armadura bem avariada, colocado sobre o cavalo para uma última batalha, cavalgando ao encontro do olhar apavorado dos seus oponentes e conduzindo os seus para uma vitória, até então, improvável.

                Esse exército sou eu, que saí fortalecido e muito transformado após todos esses dias, com a responsabilidade de eternizar os seus feitos e conquistas.



quinta-feira, 23 de julho de 2020

Quarentena - 23º dia

                Vinte três de abril... Quinta-feira...

                Nesse dia, eu e a minha irmã Eliane, fomos sozinhos até um oncologista levar os exames dele para uma avaliação mais criteriosa.

                A consulta foi paga à parte, fora do plano de saúde.
                Estávamos ainda sem saber, exatamente, a extensão da doença do nosso pai. Muitos médicos passavam prognósticos próximos, mas sem uma unanimidade de tratamento...
                Carecia saber também a origem do tumor para executar ações mais efetivas.

                Nessa clínica também havia um médico radiologista que consultaríamos para um tratamento.

                Até o que vou escrever agora, me deixa com um aperto no peito. 

                Entramos na sala do médico, esperançosos, e ouvimos o que jamais gostaríamos.

                O caso dele era gravíssimo e pelos exames que apresentamos ao doutor, não seria fácil saber a origem do tumor, que já apresentava uma metástase pelo corpo do nosso velhinho, atingindo vários órgãos e tecidos.

                Tinha uma expectativa de apenas mais seis meses de vida, se fôssemos bem otimistas.

                Aquilo acabou conosco.

                Como escrevi em diversos momentos, sabíamos da gravidade da situação, mas ouvir que o fim era próximo, foi terrível.

                A Eliane e eu choramos juntos, do consultório até chegar no quarteirão de casa.

                Depois oramos, pedimos muita força a Deus e decidimos continuar seguindo, sublimando a vida, já que a finitude estava próxima. E, médicos podem errar nos seus prognósticos...
                Ou, neste caso específico, tinha por obrigação ter se equivocado. 

                No almoço, antes de sair de casa com a minha irmã, El Cid havia brincado que gostaria de fazer uma festa junina, na chácara, naquele ano, caso acontecesse o fim da pandemia... E que estaria bom para pular a fogueira, como sempre fazia. Eu tinha esse desejo proferido por ele, horas antes de receber o prognóstico médico e, ao mesmo tempo, nem tinha a certeza de como seria o mês de junho, na nossa família.

                Dicotomia de sentimento que me arrasou e me consumiu por muitos dias.
                As festas juninas eram tradicionais na nossa chácara. E ele, junto com a minha mãe, tinha muito esmero em montar tudo para celebrar os santos juninos.
                Fogueira, enfeites, luzes, quitutama engordada pelos pratos trazidos pelos convidados, chás e quentão no fogão à lenha, o altar para o terço que era rezado religiosamente, que contava, às vezes, até com a presença do padre da paróquia que eles frequentavam, a quadrilha capitaneada pela minha irmã, Érica, o foguetório, sanfoneiro e música que varava a madrugada...

                Tinha ano que faltava espaço para tanta gente.

                Era um evento esperado pelos amigos e família, mas que não fazíamos há algum tempo.
                E, naquele ano, meu pai disse que teria.

                Apesar de saber que não haveria tempo nem condições físicas sequer para o seu tratamento (ele nunca teve essa informação), nos dias seguintes planejamos com ele, como seria o retorno do "Arraiá dos Penna"...





quarta-feira, 22 de julho de 2020

Quarentena - 22º dia


Vinte e dois de abril... Quarta-feira...
                O trato com as dificuldades cotidianas do meu pai já uma rotina... E ele é muito positivo, bem-humorado, o que torna mais fácil a lida... Sem falar, que sempre tem muitas histórias.
                Uma vez, quando adolescente, li um livro de um escritor francês, que contava a história de um menino, Tistu, com "polegar verde", em que tudo que ele tocava, brotava flores.
                Eu sempre associei está história ao meu pai. Ele tinha este dom também...
                Por onde viajávamos ele recolhia sementes, que fazia germinar nos fundos da nossa casa e, depois, plantava na nossa chácara, em Cristais Paulista.
                Até hoje, temos no pomar inúmeras espécies de laranjeiras e limoeiros, acerolas, pitangas, atemóia, bananeiras, fruta do conde, seriguela, jambo, jambolão, romãs, inúmeros coqueiros, lima da pérsia (que, para nós, caipiras, é só lima mesmo), carambolas, tamarindos, abacates de todas as qualidades, cajueiros (que nunca frutificaram), graviolas, mangueiras de diversas qualidades (o orgulho dele era uma que ele chamava de "presidente", sem fibras, muito doce e tenra), mais de uma dezena de jabuticabeiras, mamão, araçá, goiabeiras, abacaxi, lichias, amoras, marmelo, nêsperas (para nós ameixa, mesmo), caquis, maracujás, peras, mexericas, etc, etc, etc... A maioria plantada ou cuidada diretamente por ele.
                Daí, desenvolveu também uma das suas características mais marcantes, que era a de produzir deliciosos sucos, frapês e vitaminas de frutas, além de licores extremamente disputados pelos familiares e amigos.
                Além de metódico, o nosso Tistu era extremamente curioso... Aprendeu sozinho, pois não usava a internet, a retirar e congelar polpas para os sucos em épocas que não estavam na safra de determinadas frutas... Então, tínhamos no freezer que fica na copa da nossa casa, compartimentos e mais compartimentos de frutas e polpas congeladas, que faziam a alegria de todo mundo.
                O orgulho dele era o suco de graviola, já que é algo exótico na nossa região e que El Cid fazia ficar bem grosso, com um sabor marcante pela maneira que conservava congelada a fruta. Todos, sem exceção amavam a iguaria branca e leitosa, bem adoçada com açúcar cristal.
                Já as acerolas eram lavadas e contadas antes de irem para o saquinho que seria congelado. No número exato de sessenta... Depois, com um canudinho plástico, retirava o ar de dentro da embalagem, um bom nó era feito e ia direto para o congelamento... O suco produzido era de um vermelho hipnótico.
                O meu preferido era o de tamarindo... Descascado, fervido, retirava-se as sementes e depois guardava aquela pasta que fazia o mais saboroso néctar que um ser humano poderia provar...
                E assim, fazia com várias frutas, mas só aquelas que eram colhidas na chácara... Nunca produziu polpas de algo que veio de fora, sem a certeza que era totalmente orgânico, livre de venenos, tão comuns na nossa agricultura.
                Chegou até mesmo a tentar fazer vinho... Até que por uns dois ou três anos ficou muito saboroso, bem encorpado e frutado, mas depois que um fungo atacou a sua parreira, desistiu (a qualidade das uvas caiu muito)...
                Outra produção que sempre foi muito disputada pelos mais velhos da família e pelos amigos, era o licor de jabuticaba... Se orgulhava de fazer um "sem álcool", pois não acrescentava cachaça, apenas deixava as frutinhas curtirem no açúcar. Distribuía até para os parentes evangélicos. Até entender que o álcool era produzido pela fermentação da fruta com o açúcar (na realidade, eu sempre desconfiei que ele sabia disso e pregava uma grande peça na parentada). O detalhe é que o licor ficava delicioso... Vou repetir: DELICIOSO.
                Este dom foi passado para mim, mas ainda não desenvolvi a maestria de atingir os sabores que ele conseguia, pois não é só misturar fruta, água e açúcar...   

                Segundo ele, até o tempo que o liquidificador fica ligado, altera o sabor do suco.  Lenda ou não, ainda não consegui superá-lo...
                Um dia, espero ser reconhecido pelas minhas irmãs e sobrinhos, como um "suqueiro" de responsa, igual a El Cid...


terça-feira, 21 de julho de 2020

Quarentena - 21º dia


                Vinte e um de abril... Terça-feira...
                Meu aniversário.
                Se não fosse a Covid-19 eu estaria passando esta data com a minha esposa, no Peru... Por conta da pandemia, a viagem foi desmarcada e eu pude ter o privilégio de comemorar os meus cinquenta anos ao lado da minha família e com o meu pai...

                Foi o último abraço de "feliz aniversário" que recebi dele.

                Desde criança os aniversários eram muito simples, mas bem produzidos, com bolo e docinhos caseiros, muito refrigerante, que na década de 1970, na minha família era um luxo, presente só aos domingos, quando os irmãos se comportavam durante a semana, ou nesses dias de festa, mesmo (ah, em alguns velórios também se passavam algumas bandejas com Coca-Cola, Fanta Uva e Taí, mas só naqueles que se queria impressionar a parentada)... Um grande barato era quando não tinha refrigerante e o meu pai colocava bicarbonato na limonada para borbulhar e ficar parecido com Seven Up... Como eu odiava aquilo, mas até pouco tempo atrás, El Cid dizia que o melhor suco de limão era daquele jeito, "com borbulhas"... Vai entender, né.
                Por toda esta lembrança, pedi que a minha mãe fizesse um bolo de laranja com fubá, bolinhas de doce de batata doce polvilhadas com açúcar e biscoitos de polvilho que, acompanhados de suco de goiaba, foram a matéria-prima do regabofe de “comemoração dos meus anos” na nossa chácara (só faltou a minha esposa, que teve que ficar em Guarulhos, por conta da pandemia).

                Um lance legal do meu pai, que sempre nos marcava muito, era a contagem de tempo, em anos, quando comemorava o seu aniversário... Dizia que tinha um terço a menos da sua idade, justificado pelo "tempo que ele passou dormindo", seguindo a recomendação de oito horas de sono diário, na média. Então, quando completasse 84 anos (isso aconteceria em setembro de 2020), faria, na sua conta, 56 anos... Este bom humor, as respostas prontas para tudo e os comentários bem colocados, com o objetivo de nos fazer rir, eram a sua marca... El Cid, o espirituoso. 
                Foi, com certeza, a melhor festa de aniversário dos meus últimos anos. Talvez de toda a minha vida...
                A última que passei ao lado do "seu Edercides", meu pai, o meu herói.




segunda-feira, 20 de julho de 2020

Quarentena - 20º dia

                Vinte de abril... Segunda-feira...
                Mais uma vez, o meu pai acordou reclamando um pouco das pernas, que estavam mais fracas que no dia anterior...
                Ele sempre trabalhou, desde criança, por isso este período de resguardo por conta da doença que lhe consumia os movimentos era muito difícil... Isso me fazia o entender bem.
                O seu primeiro emprego, tirando aqueles de garoto, entregando jornais, engraxando sapato, foi numa fábrica de doces em Ribeirão Preto, quando a minha avó mudou-se com ele para lá, depois de uma briga com o meu avô (eles ficaram alguns meses distantes)... Contava com graça que o que mais gostava era a possibilidade de se fartar de bolachas e afins na "hora da merenda", lá na indústria...
                Depois trabalhou com um grande atacadista no bairro da Estação (a loja ficava bem ao lado da estação de trem, mesmo), nos irmãos Abraão Jorge... Amou este trabalho. 

                Dizia com orgulho o quanto aprendeu e se dedicou lá. Eles tinham contato com diversos fornecedores em, praticamente, todos os continentes, por isso recebiam correspondência postal de vários lugares do mundo... O meu pai ficava com os selos e, metódico como sempre foi, organizou uma coleção incrível de estampilhas de vários países do mundo, carimbados pelas respectivas empresas de correios... El Cid era um filatelista amador, autodidata e dedicado (ficou para mim, a coleção). Pena que fixou os selos com fita adesiva transparente (da Durex) e, com o tempo, a cola vazou em todos eles, deixando-os amarelados no centro, perdendo o seu valor comercial, mas não tem problema, pois não tenho intenção alguma em me desfazer dela.
                Desse período lembrava como ajudava os "chapas" a descarregarem os caminhões (principalmente aqueles com sacas de arroz) e das viagens que fazia com eles para buscar mercadorias em outras cidades. O grande barato é que a função do meu pai era administrativa, trabalhava dentro do escritório, mas sempre foi solidário e solícito, por isso era muito querido por todos que o conheceram. Uma história que eu achava bem interessante foi a de uma fiscalização surpresa que a empresa teve, quando dois fiscais extremamente rigorosos acharam o livro "informal" do fluxo de caixa deles e o meu pai conseguiu arrancá-lo das mãos dos inspetores e saiu correndo, pulando o balcão e se escondendo em um terreno baldio para ser destruído, posteriormente (isso ele não concordava, não, mas sempre "vestiu a camisa" dos lugares que trabalhou).
                Saiu de lá, no começo da década de 70 e foi trabalhar na indústria de solados e colas Amazonas... Não conhecia muito sobre a função que foi designado, mas recebeu o cargo de chefia pela sua inteligência e capacidade de adaptação... Infelizmente, tinha que aprender sobre as diferenças de solados na prática e foi sacaneado por algumas pessoas, que pleiteavam a sua posição... A gota d'água foi uma ameaça de greve que a equipe fez, requerendo melhores salários e ele foi o negociador deles com o patrão... Quando foi pedida a cabeça dos líderes, ele se demitiu. Não podia com injustiças...
                Acho que foi a sua melhor decisão tomada, pois não ficou quase nada em casa... Em pouco tempo já estava empregado na Usina de Laticínios Jussara, o local que trabalhou por mais de trinta anos, tão relevante que não consigo imaginá-lo em outro emprego, a não ser lá... Era conhecido como Penna... O Penna da Jussara.

                Desse seu mais duradouro emprego teve um grande reconhecimento, se orgulhando muito do fato que, mesmo depois de aposentado, era sempre convidado para as "festas de final de ano da firma".

                Aposentadoria, inclusive, que só ocorreu de fato, muitos anos após ter conseguido o benefício do INSS. Se recusava a parar de trabalhar.
                Só parou de verdade, quando o último setor da empresa foi transferido de Franca para as novas instalações em Patrocínio Paulista (e, mesmo assim, ainda foi algumas vezes para lá).
                Milagrosamente, aproveitou muito o período que ficou em casa.

                Repetia uma frase do seu saudoso pai, que dizia que era "melhor morrer com a mão inchada do que com a enxada na mão"... 

                Depois de tanto "bater o ponto", viveu muito bem, curtindo um necessário ócio e sem inchaço nas mãos.




domingo, 19 de julho de 2020

Quarentena - 19º dia

                Dezenove de abril... Domingo...

                Tradicional despertar com a alegria dominical. O dia do descanso sempre foi especial e não era diferente nesse atual momento do El Cid... Sempre acordava com um humor diferente do começo da semana.
                E, no nosso desjejum, lembramos que hoje não teria futebol.

                Se orgulhava de ser um são-paulino comedido...
                Sempre torceu pela Francana, mas era tricolor do Morumbi também...
                Contava histórias divertidíssimas sobre as equipes do passado, inclusive com uma admiração excessiva pelos estrangeiros como o Poy, o Dario, o Lugano...
                Falava também do time que fez o Santos de Pelé sair de campo (nem sei se era verdade ou não, mas era surreal a história) e quando foi assistir um jogo em Ribeirão Preto contra o Botafogo, no Estádio Santa Cruz... Falava muito do Leônidas também.
                Lembramos do dia que levei ele no Morumbi, pegando um ônibus circular na Praça das Bandeiras, repleto de torcedores arruaceiros, que iam xingando todos que encontravam pelas ruas. Já dentro do estádio, ocupamos um setor que estava bem vazio e curtimos muito isso, até a chegada da torcida Independente que entrou por um dos portões, se movimentando com cânticos de guerra tomando a arquibancada bem no lugar que nos sentamos. Mesmo sem querer, saímos para outro espaço, já que afinadamente eles cantavam "pode vir todo mundo, eu não temo ninguém, sou Independente, mato um, mato cem" e, por isso, acreditamos que não conseguiríamos os convencer em nos deixar ali... Vimos um empate sem graça contra a Lusa (o nosso ponta direita era o folclórico Mário Tilico) e no final do jogo ele levou uma "copada" de cerveja nas costas, saindo muito irritado, me pedindo para nunca mais convidá-lo a ir para o Morumbi... E, nunca mais voltou mesmo.
                A sua mais fiel seguidora é a minha irmã caçula, a Érica, são-paulina fanática, que vivia discutindo futebol com ele e se irritava muito facilmente com as características negativistas de El Cid. Inclusive, quando havia jogos do "mais querido" aos domingos, ela ligava a TV lá na chácara e o meu pai sem paciência para assistir o "quebra canelas" saía para fazer alguma coisa, mesmo sem importância, pelos arredores da casa. Quando acontecia um gol, ela ia correndo avisá-lo, mas tinha todo um ritual... A Érica gritava, "goool, pai" e ele sempre achava que era do adversário... Era hilário, pois quando o tento anotado era do tricolaço, vinha um praguejado por parte dele: "pode ter certeza que daqui a pouco eles empatam"...

                Isso, eu herdei do seu Edercides, a descrença em relação ao São Paulo F. C., que nos deu tantas glórias nas décadas de 80 e 90, mas que nos últimos anos fez até o Gabrielzinho, netinho dele, pensar em ser palmeirense... Seria uma repetição de um fato bem interessante, pois antes de ser são-paulino, quando criança, eu torci para o Vasco da Gama e, posteriormente, para o Palmeiras. E ele, sempre compreensivo e generoso nas ações, até me presenteara com uma camisa alviverde, afinal de contas, era "só futebol". Essa tolerância toda só não valeria se eu trocasse a Francana por algum time de Ribeirão Preto. Aí “o bicho pegaria”...
                PS.: este texto estou escrevendo no dia que ele comemoraria 51 anos de casamento com a minha mãe (19 de julho).

                Data especial.

                Saudades eternas.



sábado, 18 de julho de 2020

Quarentena - 18º dia

Dezoito de abril... Sábado...
Sábado sempre foi dia de ir à feira, na estação...
Conversei com ele sobre a possibilidade de ir de carro e percorrer um pequeno trecho com uma cadeira de rodas que pediria emprestada a alguém, quando a pandemia arrefecesse (tínhamos essa esperança)... Negou, pois não gostaria que ninguém o visse naquele estado. Iria somente quando estivesse totalmente curado e caminhando normalmente (também "tínhamos essa esperança") 
E ir na feira, era um evento, pois quando ele me convidava para acompanhá-lo, vinha com a tradicional frase: "é só meia horinha", mas demorávamos horas entre barracas, desfrutes de iguarias que experimentávamos, longas conversas com os conhecidos que estavam por lá e brincadeiras na tenda de queijos do Paulo e da Maria Tereza (lá, o valor da peça do "canastra", para ele, sempre deveria ser dezenove reais, mesmo quando o "preço de balcão" já estava bem maior do que isso).
Eu falava que ele deveria ser candidato a vereador, pois conhecia todo mundo e constantemente tinha uma brincadeira ou lembrança do passado das pessoas que topava (e quando não encontrava, brincava, "será que morreu?").
O pastel era de praxe... Queijo para ele e carne para mim, acompanhado de refrigerante de guaraná (Antárctica, sempre)...
Gostava também da barraca de verduras. escolhia jilós, vagens, batatas, cenouras, chuchus, alfaces e tudo mais com uma paciência incrível. Sempre conversando com a senhorinha, dona da banca ou com os outros clientes que "vibravam na mesma energia".
Na época do milho, sempre lembrava do período que estava aprendendo a dirigir. Chamava o Renil, um amigo, e me levava junto na Variant azul por vias de terra nos arredores de Franca. Claro, que o caminho era minuciosamente estudado para percorrer estradas vicinais entre volumosos milharais. Em certo momento, eles paravam, tiravam o estepe, me deixavam como vigia e metiam-se dentro da plantação. Só voltavam quando tinham os dois braços carregados de milho verde. minha mãe ficava brava com isso, mas na lógica de El Cid não era furto, pois havia bastante. 
Como eu vivia nos quintais alheios buscando frutas maduras, jamais julguei o meu pai por isso.
Esse lance de me levar sempre junto, além de criar uma relação de cumplicidade que nunca terminou, me fez também ser atento e observador. Eu amava, quando muito pequeno, ele me colocava na garupa da bicicleta e íamos até uma pista de aviação que existia onde hoje é o Distrito Industrial da nossa cidade. No caminho, íamos parando em vários pontos para colher gabirobas, jambos, araçás, cagaitas, macaúbas e outras frutas do cerrado francano, que variavam conforme a estação (confesso que a minha preferida era a gabiroba, minúscula, com sua coloração amarelada e sabor entre o adocicado e o azedinho). 
Nos finais de semana também dava caminhadas mais longas com um poodle que tivemos por 15 anos. O nome desse nosso cachorrinho era Zuzu e amava o meu pai. Era muito mimado pela minha mãe e, por isso, parecia uma criança, em muitos aspectos. Certa vez, alguém pisou na patinha dele, mas não machucou, então para chamar a atenção, ele começava a mancar assim que via a dona Elenice, que o pegava no colo e enchia de carinho. Quando ela estava longe, voltava a andar normalmente e até corria todo pimpão. Daí, meu pai, o apelidou de "Joselito", pois lembrou de uma história de um caminhoneiro da empresa que ele trabalhava que sofreu um acidente, mas só mancava quando entrava na firma. Como era nosso vizinho, o seu José (óbvio, que este nome é fictício, pois não quero confusão com a família dele) era visto andando normalmente pelas ruas do bairro, principalmente no Bar do Mané Gago. Só cambaleava, sem mancar, depois que saía de lá.


sexta-feira, 17 de julho de 2020

Quarentena - 17º dia

Dezessete de abril... Sexta-feira...
Hoje, o chuveiro não esquentou. Como costumo tomar banho logo após acordar, teve que ser com água fria mesmo.
Falei com o meu pai e ele sentenciou que a resistência provavelmente havia queimado. Ele já devia ter trocado, na vida, dezenas de resistências, principalmente da duchinha Corona do local que morávamos, na Vila Nova, nos fundos da casa dos meus avós maternos. Era aquela da propaganda que prometia um "banho de alegria, num mundo de água quente", mas que, no inverno frio de Franca, na década de 1970, não esquentava quase nada e ainda tinha, inexplicavelmente, um fiozinho de água gelada que descia por um dos buracos. Depois, os amigos não entendem o porquê da minha ojeriza à dias frios.
Só que, nas suas condições, o meu pai não conseguiria mais consertá-la. Tive que chamar o meu cunhado, pois essa habilidade não veio no meu DNA (podem me condenar, sim, sei que é vergonhoso, mas não foi hereditário).
Seu Edercides, o "faz tudo", sempre foi curioso e insistente por natureza... Tudo o que quebrava passava pelas suas mãos, antes de seguir para algum técnico. Se desse um jeito, mesmo que fosse no estilo MacGyver, não precisaria "gastar dinheiro sem necessidade". Só tinha uma pequena caixa de ferramentas, por isso sempre reclamava que não tinha as peças certas para um conserto perfeito. Era engraçado ver as soluções que ele dava para os problemas.
Outra característica dele era aproveitar tudo o que podia. 
Algo só era jogado fora, se não tivesse recuperação ou nenhum reaproveitamento, mesmo longe da sua função original... O conceito ecológico já estava embutido na cabeça e na consciência do meu pai, desde que ele se conhecia por gente.
Por um bom tempo, até parafusos e porcas que ele encontrava na rua, levava para casa, pois "sempre poderia ser útil"... E ficava radiante quando algum desses itens se encaixava com outro que havia achado anteriormente. Tenho até hoje, um prego gigante de dormente, provavelmente da Estrada de Ferro Mogiana, que ele achou na década de 1980, próximo da pracinha da Jussara (só quem é de Franca entende esta referência).
Outra coisa bacana dele era levar o jornal do escritório da usina de laticínios que trabalhava, para casa, no final do expediente, pois assim não viraria descarte e ainda nos proporcionaria informações valiosíssimas, ampliando também o nosso gosto pela leitura, principalmente de textos jornalísticos mais complexos...
Mesmo autorizado pelos diretores, ele esperava todos saírem para ter a certeza de que ninguém mais iria ler algum dos cadernos da Folha de São Paulo... Sempre foi muito consciente e atento a pequenos detalhes. 
Em Franca, não eram muitos os que tinham este privilégio, pois chegavam poucos exemplares do matutino, geralmente no ônibus da Cometa, e só no final da manhã... Lembro-me que ficávamos eu e a minha irmã do meio, a Eliane, aguardando a chegada dele, após às seis da tarde, com o calhamaço de notícias, informações e entretenimento, que aproximava a capital dos quatrocentos quilômetros da nossa cidade. Quando ele demorava um pouco mais para chegar, já sabíamos que ele estava esperando a última pessoa sair de lá, para ter certeza de que o jornal estaria liberado... Nunca perguntava se podia levar, antes de todos saírem (repito, mesmo tendo a autorização dos donos da Jussara para ficar com o jornal do dia).
E, no domingo, a diversão era ler o Comércio da Franca", que tinha mais páginas de classificados do que notícias da cidade.
Assim a vida seguiu, com mudanças que ele nunca assimilou, principalmente o quase fim dos jornais impressos e dos parafusos perdidos nas ruas.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Quarentena -16º dia

Dezesseis de abril... Quinta-feira...
Fiz o almoço, mas ele sempre pedia para retirar as sementes do tomate. Como usava prótese, elas entravam embaixo dela e machucavam muito, causando ferimentos que dificultavam a sua mastigação.
Antes dos quarenta anos ele já havia retirado todos os seus dentes. Lembro-me, no final da década de 1970, de vê-lo sofrer bastante com uma nevralgia crônica que fazia a sua mandíbula doer bastante, refletindo principalmente na arcada dentária. Para solucionar foi ao dentista e fez a extração de todos eles. Esse fato, sempre me impressionou, principalmente por ver a minha mãe com objetivo oposto, sempre tentando salvar a todo custo, qualquer dente que estivesse sob risco de ser perdido.
E a parte mais interessante, é que ninguém percebia que o meu pai usava dentaduras, nem tampouco ele precisava de fixadores ou qualquer outro produto para dar mais segurança no dia a dia. Quando criança, eu só achava engraçado ver ele tirando a "chapa" para fazer a escovação (dormia com ela na boca).
A tarde foi tranquila... Como sempre, conversamos bastante, tergiversamos mais ainda, principalmente quando começamos a lembrar das histórias em algumas viagens... Diz o ditado que "quem conta um conto, aumenta um ponto"... Então, para dirimir algumas dúvidas sobre isso, recorremos aos álbuns de fotografias que são guardados embaixo do rack da televisão, na sala.
O grande barato da minha família é que as imagens feitas não ficam apenas na memória do celular ou na nuvem digital. Eles têm o costume de imprimir uma parte delas, o que é muito legal, pois conseguimos relembrar fatos que não seriam facilmente recuperados apenas buscando a galeria digital. O portfólio fotográfico facilita muito as nossas conexões intrafamiliares e a consolidação do termo "lugar" num sentido mais geográfico da palavra... Memorabília, se é que me entende!
E foram várias viagens em família, desde a Riviera de São Lourenço (anual, nos últimos anos), Maceió (a primeira dele de avião), onde ficamos sabendo do acidente aéreo de um aeroplano pilotado por um dos meus melhores amigos, o Marquinhos, assistindo o Jornal Nacional, o Ano Novo em Recife, onde tivemos que comer cachorro quente na Praia de Boa Viagem, pois tudo estava fechado um pouco antes da queima de fogos (o que estava aberto tinha necessidade de reserva, algo que não nos atentamos), as idas para Fortaleza, passando temporadas no meu apartamento na Aldeota, que não tinha chuveiro quente em nenhum dos banheiros, algo que deixava El Cid indignado. Lembramos que ele queria pagar a compra de um chuveiro elétrico, mas eu sempre negava, pois o Ceará é a "terra do Sol" e, por ser quente o ano inteiro, não havia a necessidade de água aquecida no banho.
Numa viagem para a Paraíba, o meu pai ficou maravilhado com as belezas das praias dos arredores de João Pessoa, da malandragem dos "guaiamuns garçons" de Goiana (cidade pernambucana, mas na divisa com o estado que visitávamos) que o proprietário de um restaurante, o Buraco da Gia, dizia ter treinado eles para dar cerveja aos turistas. Nesse mesmo dia, demos muitas risadas, lembrando que ele ficou indignado que o levamos para Tambaba, uma praia de naturismo. Claro, que ficamos do lado onde ficar "como viemos ao mundo" era apenas opcional e não vimos nenhum "peladão", lá.
Uma paradinha para eu buscar uma xícara de café.
Voltamos para os álbuns e continuamos a folheá-los, recordando as idas para a baixada santista, nos anos 80 e 90, principalmente Praia Grande e Mongaguá. Aqui cabe um adendo, pois mesmo sendo de família católica, inclusive fui coroinha até os 13 anos, eu sempre gostei dos cultos e ritos de outras religiões. Na minha infância, eu ia na missa na mesma proporção que tomava passes em um centro kardecista, frequentado pela minha tia Luci. Gostava também de ver as giras e as festas de religiões afrobrasileiras em Franca. Por isso, nessas viagens para a praia, no final de ano, meu pai sempre me acompanhava para ver os terreiros que eram montados na areia, admirando muito os batuques, as danças e os trajes dos religiosos do candomblé e da umbanda. El Cid era uma pessoa incrível e muito esclarecida em assuntos dogmáticos, sem preconceitos, mesmo sendo criado em uma família muito intolerante nessas questões (os meus avós paternos eram bem preconceituosos quanto a outros credos). 
Gostava muito de ir também para a capital, visitar a Paulicéia, pois as idas à casa dos meus avós em Guarulhos eram tão frequentes quanto os "bate e volta" para Ribeirão Preto, cidade que ele lembrava o nome de todas as ruas do centro e das suas principais avenidas desde a saída da Rodovia Cândido Portinari. 
Ele amou o Mato Grosso do Sul, desde Bonito até o Pantanal, onde gabava-se ter sido o único a pescar piranhas para o caldo servido no jantar da Fazenda São Francisco. Todos os peixes no anzol das fotos feitas com turistas no barco foram fisgados por ele. 
Na nossa primeira ida para as Serras Gaúchas, no voo para Porto Alegre, eu, a minha irmã Eliane e o meu cunhado não conseguimos embarcar por conta de um overbooking motivado pelo acréscimo de passageiros extras no momento do check in. A situação já foi desagradável, pois tínhamos até assento reservado, mas o que deixou o meu pai mais irritado foi saber que os "passageiros de última hora" era o Ronaldinho Gaúcho e alguns "parças" dele. Seu Edercides passou a odiá-lo após isso. E, durante a rota, aconteceu um paradoxo com a parte da família que embarcou: a minha irmã caçula queria ir até o jogador, sentado no fundo do avião, pegar um autógrafo, enquanto o meu pai queria ir lá, tirar satisfações... Não rolou uma coisa nem outra.
Depois de boas risadas, finalizamos vendo mais cliques familiares feitos no apartamento de um grande amigo meu, o Toninho, num Réveillon na década de 90, em Floripa, outros em Porto Seguro, onde fui travestido de mulher por alguns alunos que encontramos lá e mais algumas saídas esporádicas que sempre me lembraram que esse meu gosto de viajar, conhecer novos lugares, experimentar sabores e aromas, conversar com os locais, foi influência dos meus pais.
Para nós, viajar nem sempre foi procurar novas paisagens, mas ter um novo olhar sobre o espaço que vivemos. 


quarta-feira, 15 de julho de 2020

Quarentena - 15º dia

Quinze de abril... Quarta-feira...
Esse dia foi especial.
Guardo ele na memória, pois nos encheu de esperanças.
Fui com o meu pai fazer uma tomografia no Hospital São Joaquim.
Enquanto ele estava sendo preparado e aguardava o exame, vi uma grande movimentação nos corredores da ala de internação.
Enfermeiras, médicos, atendentes e alguns pacientes com enfermidades não contagiosas começaram a ocupar um dos corredores e as rampas de acesso, com bexigas coloridas, bandeiras e instrumentos musicais (incluindo alguns de percussão).
Seguiu uma cena que me faz os olhos lacrimejarem até hoje... Uma senhora com pouco mais de setenta anos, havia sido diagnosticada com o Coronavírus (os jornais do dia seguinte escreveram que tinha sido o segundo caso de Franca) e, naquele momento, recebia alta, saindo com estado de saúde normal, sentindo apenas uma compreensível fraqueza, mesmo após de dias entubada.
Foi uma festa.
Eu filmei tudo e coloquei num grupo de amigos. Minutos depois, recebi uma mensagem que um ex-inspetor de alunos do colégio que eu trabalhava, não teve a mesma sorte. Acabara de falecer, num centro médico de Guarulhos.
Aqueles dias nos traziam sempre esse dualismo, de esperança e desalento, alegria e frustração, serenidade e muita raiva com os rumos que muitos propunham naquele contexto. E, ainda era necessário preservar o meu pai e a nós, próximos dele, para evitar uma contaminação que tornaria o cotidiano impossível de ser administrado.
Óbvio que ao terminar a tomografia, eu só contei a ele a parte positiva do dia, ou seja, a recuperação de uma paciente idosa. Ele ficou bem feliz e me perguntou se eu acreditava que ele melhoraria, que voltaria a andar. Sim, eu e todos acreditávamos ser possível. 
Para mim era uma certeza, já que ele sempre foi muito forte, muito perseverante. Era El Cid, o meu herói...
Um cara que viveu na Franca de antigamente, sem muito luxo e com muita criatividade.
Neto de um feitor da Companhia Alta Mogiana, com tios maternos ligados ao trabalho ferroviário,  muito brutalizado em proporções de máquinas e ferramentas, tendo desde a infância essa influência, brincando entre trilhos, dormentes e pátios de locomotivas. Amava tanto a rotina ferroviária, que compartilhou desde sempre comigo, essa predileção. 
Um dos passeios que mais gostava de fazer conosco era ir até Ribeirão Preto de trem. Fizemos uma das últimas viagens do trecho, saindo de Franca, antes da desativação desse ramal de passageiros, em 1977. Os trens de carga ainda circularam até 1980, mas a esperança do meu pai em ter a reativação da linha férrea, caiu por terra na retirada definitiva dos trilhos em 1988.
Como alguns amigos contavam que parte do material carril foi servir como "mata-burros" e mourões de cerca em fazendas de influentes políticos da região, a sua revolta era ainda maior. 
Contava que até a vida social da cidade era muito ligada à estação e aos comboios que chegavam e partiam. Um dos lugares mais frequentados pelo meu pai sempre foi a Praça da Estação, onde concentravam muitos jovens da sua época, no footing do final da tarde dos finais de semana ao som dos alto falantes do Zig Zag (sonorizado pelo seu amigo Olivar).
Os homens ficavam parados e as moças passeavam pelas alamedas, acompanhadas pelas irmãs mais velhas ou pelas mães e tias.
Foi lá que conheceu a minha mãe...




terça-feira, 14 de julho de 2020

Quarentena - 14º dia

                Quatorze de abril... Terça-feira...

                Hoje, ele acordou bem mais animado. Fiz a sua barba, mais uma vez, e conversamos no momento do café da manhã sobre a sua possibilidade de voltar a dirigir, pois andar tínhamos quase certeza que seria questão de tempo. Inclusive, no dia que perdeu os movimentos nas suas pernas, ele estava na chácara, no pomar e, mesmo acompanhado do meu cunhado, que viu a queda dele, tinha ido dirigindo o seu Classic cinza.

                Gostava dessa autonomia de não precisar de ninguém quando se locomovia pelas ruas de Franca, apesar de não curtir muito ir para cidades maiores, com mais movimento de veículos.

                Era um motorista prudente e muito chato, aquele tipo que ia narrando o tráfego e o comportamento dos outros choferes... Quando eu o apelidei de "Galvão Bueno do trânsito", não gostou muito, pois o narrador global era "persona non grata" para ele. Tinha tanta ojeriza do Galvão, que assistia os jogos narrados por ele, com a televisão sem som.

                Pela sua desenvoltura e habilidade ao volante, nem dava para imaginar que só havia sido habilitado para dirigir com mais de 40 anos, no começo da década de 1980. Inclusive, chegou a comprar o seu primeiro carro, antes de tirar a CNH. 

                Em 1978, adquiriu uma Variant azul, ano 1972.

                Deixava-a parada em frente à casa dos meus avós maternos, na Vila Nova (eu gostava de ficar dentro dela, ouvindo rádio FM). Não a dirigia e quando precisava utilizá-la, pedia para algum amigo a conduzir.

                Lembro-me que nas nossas idas para a chácara da tia Geralda, irmã da vó Zilda, com o possante lotado, era o Chicão, da Casa Paulista que nos levava. Íamos por São José da Bela Vista e um pouco antes de chegar em São Joaquim da Barra (terra do Rolando Boldrin) entrávamos na Rodovia Anhanguera, que tinha pista simples. Pegávamos uma fila de caminhões, com ultrapassagem quase impossível. 

                Numa dessas viagens, com a Variant bem cheia - meu pai na frente, o Chicão dirigindo, no banco de trás a minha mãe com a Érica no colo, o meu avô, a minha avó e na tampa traseira, onde ficava o motor, a minha irmã Eliane e eu - quase sofremos um acidente. Estávamos atrás de vários caminhões e outros tantos vinham na nossa retaguarda, tudo muito organizado, até que, uma carreta, impaciente, sai da sua faixa de rolamento e tenta ultrapassar vários veículos ao mesmo tempo.

                Como não conseguiu, emparelhou-se conosco e o meu pai percebeu, no ato, a intenção do caminhoneiro: encaixar-se onde exatamente estávamos. Então, deu um grito para o Chicão, pedindo para ele jogar o nosso carro para o acostamento o mais rápido possível. Foi só o tempo de fazer isso e a carreta jogou-se para o nosso lado, tendo a sorte do motorista do caminhão de trás, também ter saído para a lateral, criando um espaço que ela pode se encaixar.

                Desde então, eu sempre enxerguei aquela atitude de El Cid, como um ato heroico, salvando toda a nossa família e o seu amigo.

                Passei a ter um super-herói de carne e osso (mais osso que carne, já que ele era bem magrinho) que, ao invés de montar um alazão apenas, anos depois passaria a conduzir os 65 cavalos da sua VW Variant motor 1.600 de dupla carburação e refrigerada a ar...

                Pense num filho orgulhoso.