Trinta de abril...
Quinta-feira...
Nas quintas, a Teresa ia para
casa ajudar a minha mãe na faxina semanal, mas por conta da pandemia, isso não
acontece mais... Então divido o meu tempo, neste dia da semana, entre os
cuidados com El Cid e uma força para a minha mãe no varrer, aspirar, lavar e
encerar.
Conversamos sobre a vida no
casamento, pois já havia completado um mês que eu estava longe da minha esposa,
que ficou em Guarulhos, enquanto eu estava fazendo companhia para o meu pai. Vi
que este distanciamento preocupava muito o meu velho...
Ele que passou praticamente dois
terços da vida dele ao lado da minha mãe, não tinha por hábito distanciar-se
dela. Até as viagens eram compartilhadas por todos, influenciando muito as
minhas irmãs, que também ao viajarem, levavam junto os meus pais... Era
engraçado que a minha mãe sempre se prontificava a ir, adorava passear, mas o
"seu Edercides" fazia o charminho característico do "podem ir,
eu não estou muito afim de viajar, não"... Claro que sempre ia e era quem
mais aproveitava os passeios...
Eu, inclusive, aderi a um desses
programas de fidelização de viajantes, que nem sempre representam benefícios,
mas fiz por conta dos meus progenitores, que sempre amaram as águas termais de
Goiás e, com frequência, reclamavam dos custos para passar temporadas, lá...
Fiquei sócio temporariamente do Rio Quente Resorts, pois sabia que eles curtiam
muito o lugar.
A nossa última viagem para o Rio
Quente havia sido em julho de 2019, para comemorar os 50 anos do casamento dele
e da minha mãe, que trocaram festejar em algum buffet por uma semana de
convivência conosco, desfrutando de boa comida, tranquilidade e piscinas de
águas quentinhas.
Nestes sete dias, que
aproveitamos muito, veio na memória o quanto eles foram companheiros a vida
toda, dividindo tarefas domésticas, farturas e carências, a responsabilidade na
criação de três filhos, sem perder o respeito mútuo e o amor.
Uma das qualidades que eu mais
admirava no meu pai era o cavalheirismo e o esmero que tinha ao cuidar da minha
mãe, quando saíam para passear. Era um verdadeiro protetor, no sentido estrito
da palavra, não só em relação a ela como de todos nós...
Lembro-me de vê-lo abrir a porta
para todos entrarem, nos dar o direito de escolha do lugar que comeríamos,
fazer questão de ser o último a se servir, não interromper a conversa da minha
mãe, entre tantos outros gestos pequenos que mostravam a grandeza do seu
caráter e da sua generosidade.
Sempre quis ser igual a ele...
Acho que, em parte, consigo, já que fui educado pelo exemplo, mas ser de uma
outra geração, cuja preocupação com esses detalhes é menor, me faz deslizar no
trato com os meus semelhantes.
Como quase nunca tivemos
faxineiras em casa (essa condição é bem recente) todo o serviço doméstico era
dividido entre nós e ele também participava ativamente, lavando a louça, o
banheiro, a garagem e até aspirando a casa, vez ou outra... Essa divisão de
tarefas veio desde a minha infância, pois os meus pais trabalhavam em dois
períodos e não conseguiam fazer tudo sozinhos. Acho que passar parte desses
compromissos para nós, os filhos, era estratégia de educação.
Moramos por muito tempo em uma
casa construída no quintal dos meus avós, que tinha piso de taco de madeira,
que a minha mãe queria sempre brilhando...
Eu era responsável pela limpeza e
manutenção dele... Depois de bem varrido, passava uma cera líquida que não
podia ficar muito tempo em contato com a madeira, pois manchava o piso...
Então, com um esfregão, tinha que dar o brilho bem rapidamente, mas esse ato
fazia com que a minha irmã Eliane, bem pequenininha na época, imaginasse um bom
lugar para sentar e deslizar enquanto eu empurrava o pesado objeto que
deslizava sobre feltro de tecido... Era uma alegria para ela, mas eu sentia o
peso dobrado na hora de polir o chão...
O meu alívio só veio quando eles
compraram uma enceradeira elétrica.
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