Três de abril, sexta-feira...
Ainda não havia me acostumado em
levantar tantas vezes durante a noite... Mesmo com uma rotina de remédios, a
madrugada entre a meia noite e seis da manhã deveria ser tranquila. Mas, como
ele tinha que hidratar-se muito durante o dia, a necessidade de ir ao banheiro
era evidente... Toda vez que eu o ouvia tocar no andador, eu acordava e apurava
o ouvido para entender qual seria a ação.
Não só nessas primeiras noites,
como em muitas outras, eu me levantava também para ir ao banheiro e aproveitava
para dar uma olhada se estava tudo bem com ele. Como havia uma lampadazinha
verde no quarto, uma "luz de pirilampo", eu conseguia ficar alguns
segundos observando o sono dele... Deve ser a mesma sensação que um pai tem ao
fiscalizar o dormir de um filho recém-nascido.
Neste período, ele me relatou
vários pesadelos que teve e, em muitos, a dificuldade em correr de algo sempre
o afligia.
Mais uma vez, o dia foi moroso,
com o nosso programa favorito: escutar músicas, fato que, em casa, tinha um
atrativo maior, pois a minha mãe tem uma dessas caixinhas que potencializa o
som do celular, deixando este deleite sonoro quase perfeito.
Lembro-me que sempre entrávamos
em calorosas contendas sobre qualquer assunto, com doses fortes de teimosia (a
minha é genética, paterna) e o que mais curtíamos discutir, além do futebol, é
claro, era sobre os compositores de música erudita...
Como eu, El Cid não era músico,
muito menos estudioso sobre o tema (não tocava nenhum instrumento também), mas
era um amante da música clássica, paixão que passou para mim desde a infância.
Conversávamos muito sobre óperas, árias, compositores, tenores, sopranos etc e
tal.
E muitas vezes, defendíamos
pontos de vista diferentes só para acirrar uma discussão deliciosa...
Ele adorava dizer que Puccini era
o maior de todos e eu, só para discordar, falava que era o Verdi. Daí,
recorríamos a um aplicativo de música e escolhíamos várias árias para provar a
nossa opinião... Ele geralmente deixava "Ó Mio Babbino Caro" para
encerrar a discussão (o Nessum Dorma com o Pavarotti era proibido de ser usado
como argumento).

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