Vinte e dois de abril...
Quarta-feira...
O
trato com as dificuldades cotidianas do meu pai já uma rotina... E ele é muito
positivo, bem-humorado, o que torna mais fácil a lida... Sem falar, que sempre
tem muitas histórias.
Uma
vez, quando adolescente, li um livro de um escritor francês, que contava a
história de um menino, Tistu, com "polegar verde", em que tudo que
ele tocava, brotava flores.
Eu
sempre associei está história ao meu pai. Ele tinha este dom também...
Por
onde viajávamos ele recolhia sementes, que fazia germinar nos fundos da nossa
casa e, depois, plantava na nossa chácara, em Cristais Paulista.
Até
hoje, temos no pomar inúmeras espécies de laranjeiras e limoeiros, acerolas,
pitangas, atemóia, bananeiras, fruta do conde, seriguela, jambo, jambolão,
romãs, inúmeros coqueiros, lima da pérsia (que, para nós, caipiras, é só lima
mesmo), carambolas, tamarindos, abacates de todas as qualidades, cajueiros (que
nunca frutificaram), graviolas, mangueiras de diversas qualidades (o orgulho
dele era uma que ele chamava de "presidente", sem fibras, muito doce
e tenra), mais de uma dezena de jabuticabeiras, mamão, araçá, goiabeiras,
abacaxi, lichias, amoras, marmelo, nêsperas (para nós ameixa, mesmo), caquis,
maracujás, peras, mexericas, etc, etc, etc... A maioria plantada ou cuidada
diretamente por ele.
Daí,
desenvolveu também uma das suas características mais marcantes, que era a de
produzir deliciosos sucos, frapês e vitaminas de frutas, além de licores
extremamente disputados pelos familiares e amigos.
Além
de metódico, o nosso Tistu era extremamente curioso... Aprendeu sozinho, pois
não usava a internet, a retirar e congelar polpas para os sucos em épocas que
não estavam na safra de determinadas frutas... Então, tínhamos no freezer que
fica na copa da nossa casa, compartimentos e mais compartimentos de frutas e
polpas congeladas, que faziam a alegria de todo mundo.
O
orgulho dele era o suco de graviola, já que é algo exótico na nossa região e
que El Cid fazia ficar bem grosso, com um sabor marcante pela maneira que
conservava congelada a fruta. Todos, sem exceção amavam a iguaria branca e
leitosa, bem adoçada com açúcar cristal.
Já
as acerolas eram lavadas e contadas antes de irem para o saquinho que seria
congelado. No número exato de sessenta... Depois, com um canudinho plástico,
retirava o ar de dentro da embalagem, um bom nó era feito e ia direto para o
congelamento... O suco produzido era de um vermelho hipnótico.
O
meu preferido era o de tamarindo... Descascado, fervido, retirava-se as
sementes e depois guardava aquela pasta que fazia o mais saboroso néctar que um
ser humano poderia provar...
E
assim, fazia com várias frutas, mas só aquelas que eram colhidas na chácara...
Nunca produziu polpas de algo que veio de fora, sem a certeza que era
totalmente orgânico, livre de venenos, tão comuns na nossa agricultura.
Chegou
até mesmo a tentar fazer vinho... Até que por uns dois ou três anos ficou muito
saboroso, bem encorpado e frutado, mas depois que um fungo atacou a sua
parreira, desistiu (a qualidade das uvas caiu muito)...
Outra
produção que sempre foi muito disputada pelos mais velhos da família e pelos
amigos, era o licor de jabuticaba... Se orgulhava de fazer um "sem
álcool", pois não acrescentava cachaça, apenas deixava as frutinhas
curtirem no açúcar. Distribuía até para os parentes evangélicos. Até entender
que o álcool era produzido pela fermentação da fruta com o açúcar (na
realidade, eu sempre desconfiei que ele sabia disso e pregava uma grande peça
na parentada). O detalhe é que o licor ficava delicioso... Vou repetir:
DELICIOSO.
Este
dom foi passado para mim, mas ainda não desenvolvi a maestria de atingir os
sabores que ele conseguia, pois não é só misturar fruta, água e açúcar...
Segundo
ele, até o tempo que o liquidificador fica ligado, altera o sabor do suco. Lenda ou não, ainda não consegui superá-lo...
Um
dia, espero ser reconhecido pelas minhas irmãs e sobrinhos, como um
"suqueiro" de responsa, igual a El Cid...

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