Via Franca

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quinta-feira, 23 de julho de 2020

Quarentena - 23º dia

                Vinte três de abril... Quinta-feira...

                Nesse dia, eu e a minha irmã Eliane, fomos sozinhos até um oncologista levar os exames dele para uma avaliação mais criteriosa.

                A consulta foi paga à parte, fora do plano de saúde.
                Estávamos ainda sem saber, exatamente, a extensão da doença do nosso pai. Muitos médicos passavam prognósticos próximos, mas sem uma unanimidade de tratamento...
                Carecia saber também a origem do tumor para executar ações mais efetivas.

                Nessa clínica também havia um médico radiologista que consultaríamos para um tratamento.

                Até o que vou escrever agora, me deixa com um aperto no peito. 

                Entramos na sala do médico, esperançosos, e ouvimos o que jamais gostaríamos.

                O caso dele era gravíssimo e pelos exames que apresentamos ao doutor, não seria fácil saber a origem do tumor, que já apresentava uma metástase pelo corpo do nosso velhinho, atingindo vários órgãos e tecidos.

                Tinha uma expectativa de apenas mais seis meses de vida, se fôssemos bem otimistas.

                Aquilo acabou conosco.

                Como escrevi em diversos momentos, sabíamos da gravidade da situação, mas ouvir que o fim era próximo, foi terrível.

                A Eliane e eu choramos juntos, do consultório até chegar no quarteirão de casa.

                Depois oramos, pedimos muita força a Deus e decidimos continuar seguindo, sublimando a vida, já que a finitude estava próxima. E, médicos podem errar nos seus prognósticos...
                Ou, neste caso específico, tinha por obrigação ter se equivocado. 

                No almoço, antes de sair de casa com a minha irmã, El Cid havia brincado que gostaria de fazer uma festa junina, na chácara, naquele ano, caso acontecesse o fim da pandemia... E que estaria bom para pular a fogueira, como sempre fazia. Eu tinha esse desejo proferido por ele, horas antes de receber o prognóstico médico e, ao mesmo tempo, nem tinha a certeza de como seria o mês de junho, na nossa família.

                Dicotomia de sentimento que me arrasou e me consumiu por muitos dias.
                As festas juninas eram tradicionais na nossa chácara. E ele, junto com a minha mãe, tinha muito esmero em montar tudo para celebrar os santos juninos.
                Fogueira, enfeites, luzes, quitutama engordada pelos pratos trazidos pelos convidados, chás e quentão no fogão à lenha, o altar para o terço que era rezado religiosamente, que contava, às vezes, até com a presença do padre da paróquia que eles frequentavam, a quadrilha capitaneada pela minha irmã, Érica, o foguetório, sanfoneiro e música que varava a madrugada...

                Tinha ano que faltava espaço para tanta gente.

                Era um evento esperado pelos amigos e família, mas que não fazíamos há algum tempo.
                E, naquele ano, meu pai disse que teria.

                Apesar de saber que não haveria tempo nem condições físicas sequer para o seu tratamento (ele nunca teve essa informação), nos dias seguintes planejamos com ele, como seria o retorno do "Arraiá dos Penna"...





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