
Onze de abril... Sábado...
No dia anterior, tomamos um
pequeno susto com El Cid, mas hoje ele acordou melhor, queixando-se, como
sempre faz, por ter que tomar um anticoagulante, entre os vários medicamentos
que consome, por dia... É engraçado, pois ele encasquetou com esse remédio,
achando que dá náuseas (leu algo parecido na bula), mas o próprio médico já
afirmou que a sensação de enjoo é devido ao "conjunto da obra", ou
seja, doença e tratamento medicamentoso. Por isso, quando queremos troçar com
ele, dizemos que está na hora do “Xarelto”.
Já durante o café da manhã,
conversamos sobre as viagens que iríamos fazer quando ele melhorasse... Ele se
negava viajar com o auxílio de cadeira de rodas ou muletas... Lembro que a
limitação de movimentos nas pernas era o que mais o afetava, mesmo sabendo que
o seu corpo estava com um tumor.
Era gostoso demais, viajar com
ele. Nós, os filhos, que preparávamos tudo, comprávamos passagens, fazíamos
reservas de hotéis, contratávamos guias locais e tudo mais o que precisasse. Até
a mala dele alguém precisava ajudar a arrumar... Mas, depois de escolhido o
destino, ele pegava um atlas que eu o havia presenteado e buscava todas as
informações possíveis sobre o lugar. Na viagem, ia nos informando o que tinha
nas proximidades, nas paradas, na cidade principal, as características de
clima, vegetação e relevo. Era praticamente um geógrafo.
No local, conversava com todo
mundo, assuntando dicas e furadas dos próximos dias, que nos repassava durante
o jantar. E me perguntava tudo o que precisava ainda descobrir, pois o que eu
não sabia, buscava no Google para saciar a curiosidade dele. Eu amava isso...
Uma passagem que, agora fica
engraçada, mas que nos causou muito estresse, foi numa viagem para o Rio Grande
do Norte. Fomos eu, ele e a minha mãe. Excursão comprada na extinta BRA, com
sete dias em Natal.
Apesar de muito preocupado com
pequenos detalhes, o meu pai nunca gostou de viajar com o RG original. Nunca
teve problema, tanto que naquele dia, embarcamos no Cometa para São Paulo para,
de lá, ir até o aeroporto em Guarulhos.
Chegamos bem cedo e nos dirigimos
até o embarque. Já na fila, ele me perguntou se precisava ter o documento
original (deve ter lido instruções, em alguma placa). Afirmei a necessidade e
ele me disse que só tinha uma cópia e nem era autenticada. Como sempre brincava
com essas coisas, não levei a sério. Até que chegou na atendente, no balcão do
check in, e mostrou o RG xerocopiado, reduzido e plastificado. Minha mãe disse
para ele parar de brincadeira e mostrar o original.
Após segundos tensos, percebemos
que, infelizmente, ele não estava brincando.
Não pode embarcar e como era um
voo fretado, não haveria possibilidade de remarcação. Eu escrevo aqui com certa
dose de humor, mas o momento foi digno de uma tragédia grega. Minha mãe
chorando, ele pedindo para abrir uma exceção e eu atônito, sem acreditar no que
estava acontecendo.
Para resumir, o gerente da
companhia aérea se sensibilizou (talvez achou mesmo que a expressão "dá
vontade de te matar" que a minha mãe falou várias vezes, soou como
verdadeira) e permitiu que o seu Edercides embarcasse no dia seguinte, em outro
voo da empresa.
Teve que voltar para Franca no ônibus da meia noite, buscar em casa o documento
original e retornar no próximo horário, ainda pela manhã para São
Paulo/Guarulhos.
Quando fui buscá-lo no aeroporto
de Natal, já no final do outro dia, estava todo folgazão, dizendo que a
simpatia dele é que tinha dado jeito no imbróglio.
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