Via Franca

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sábado, 11 de julho de 2020

Quarentena - 11º dia

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Onze de abril... Sábado...

                No dia anterior, tomamos um pequeno susto com El Cid, mas hoje ele acordou melhor, queixando-se, como sempre faz, por ter que tomar um anticoagulante, entre os vários medicamentos que consome, por dia... É engraçado, pois ele encasquetou com esse remédio, achando que dá náuseas (leu algo parecido na bula), mas o próprio médico já afirmou que a sensação de enjoo é devido ao "conjunto da obra", ou seja, doença e tratamento medicamentoso. Por isso, quando queremos troçar com ele, dizemos que está na hora do “Xarelto”.

                Já durante o café da manhã, conversamos sobre as viagens que iríamos fazer quando ele melhorasse... Ele se negava viajar com o auxílio de cadeira de rodas ou muletas... Lembro que a limitação de movimentos nas pernas era o que mais o afetava, mesmo sabendo que o seu corpo estava com um tumor.

                Era gostoso demais, viajar com ele. Nós, os filhos, que preparávamos tudo, comprávamos passagens, fazíamos reservas de hotéis, contratávamos guias locais e tudo mais o que precisasse. Até a mala dele alguém precisava ajudar a arrumar... Mas, depois de escolhido o destino, ele pegava um atlas que eu o havia presenteado e buscava todas as informações possíveis sobre o lugar. Na viagem, ia nos informando o que tinha nas proximidades, nas paradas, na cidade principal, as características de clima, vegetação e relevo. Era praticamente um geógrafo.

                No local, conversava com todo mundo, assuntando dicas e furadas dos próximos dias, que nos repassava durante o jantar. E me perguntava tudo o que precisava ainda descobrir, pois o que eu não sabia, buscava no Google para saciar a curiosidade dele. Eu amava isso...

                Uma passagem que, agora fica engraçada, mas que nos causou muito estresse, foi numa viagem para o Rio Grande do Norte. Fomos eu, ele e a minha mãe. Excursão comprada na extinta BRA, com sete dias em Natal. 

                Apesar de muito preocupado com pequenos detalhes, o meu pai nunca gostou de viajar com o RG original. Nunca teve problema, tanto que naquele dia, embarcamos no Cometa para São Paulo para, de lá, ir até o aeroporto em Guarulhos.

                Chegamos bem cedo e nos dirigimos até o embarque. Já na fila, ele me perguntou se precisava ter o documento original (deve ter lido instruções, em alguma placa). Afirmei a necessidade e ele me disse que só tinha uma cópia e nem era autenticada. Como sempre brincava com essas coisas, não levei a sério. Até que chegou na atendente, no balcão do check in, e mostrou o RG xerocopiado, reduzido e plastificado. Minha mãe disse para ele parar de brincadeira e mostrar o original.

                Após segundos tensos, percebemos que, infelizmente, ele não estava brincando. 

                Não pode embarcar e como era um voo fretado, não haveria possibilidade de remarcação. Eu escrevo aqui com certa dose de humor, mas o momento foi digno de uma tragédia grega. Minha mãe chorando, ele pedindo para abrir uma exceção e eu atônito, sem acreditar no que estava acontecendo.

                Para resumir, o gerente da companhia aérea se sensibilizou (talvez achou mesmo que a expressão "dá vontade de te matar" que a minha mãe falou várias vezes, soou como verdadeira) e permitiu que o seu Edercides embarcasse no dia seguinte, em outro voo da empresa.
Teve que voltar para Franca no ônibus da meia noite, buscar em casa o documento original e retornar no próximo horário, ainda pela manhã para São Paulo/Guarulhos. 

                Quando fui buscá-lo no aeroporto de Natal, já no final do outro dia, estava todo folgazão, dizendo que a simpatia dele é que tinha dado jeito no imbróglio.

                Só ficou desenxabido, quando soube que havia perdido o passeio de bugue pelas dunas de Genipabu.


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