Primeiro de abril, quarta-feira...
Este
dia começou, na realidade, na noite anterior... Funcionou às avessas, como um
famoso golpe que foi dado no dia primeiro de abril, mas é
"comemorado" como revolução, no dia 31 de março.
Como
já havia escrito, no meu caso, o dia primeiro começou na véspera... Ao receber
a notícia da internação do meu pai, o senhor Edercides Baptista Penna ou
"El Cid", na manhã da terça-feira, me organizei para ir para Franca.
Por conta do crescimento dos casos da Covid-19, combinei que a minha esposa me
levaria, no final da tarde, e me deixaria próximo à Franca, onde o meu cunhado
Luizmar me encontraria e terminaria o trajeto comigo.
Passamos
na casa do filho dela, o Luiz, em Jundiaí e seguimos viagem, chegando em
Brodowski próximo das vinte e três horas, onde o meu cunhado já nos
aguardava... Nos despedimos e cheguei na casa dos meus pais, depois da meia
noite (já nos primeiros minutos do dia primeiro).
Noite
agitada, de pouco sono e muita ansiedade, dormida na cama de solteiro do quarto
de brinquedos dos meus sobrinhos. Café tomado, ainda no frescor dos primeiros
raios daquele dia, peguei uma carona com a minha mãe até o Hospital São
Joaquim, que os francanos chamam de "hospital da Unimed", entrando no
quarto do meu velhinho antes das oito daquela manhã... Já havia uma preocupação
com a pandemia, então fui com uma máscara decente, mas percebi que até mesmo os
profissionais de saúde do hospital estavam sem os equipamentos tão necessários
nos dias atuais (escrevo este texto no primeiro dia de julho).
Confesso
que nunca é confortável entrar em um hospital, nem como visitante, mas naquele
dia senti um nó bem grande na minha garganta, pois além da preocupação natural
com o meu pai, parecia que eu estava pisando em campo minado (volto a repetir,
o vírus, desde o princípio, me assustou muito).
Não
me lembro o número do quarto, mas por conta da idade dele, oitenta e três anos
e por já existirem casos suspeitos por contaminação do corona vírus na cidade
(alguns até internados em uma ala específica do hospital), o internaram na
maternidade... Foi estranho, pois no caminho até ele, percorrendo corredores e
rampas intermináveis, fui cruzando com acompanhantes exultantes e portas
decoradas com nomes de crianças e suas respectivas mamães. Imaginei até o
interior delas com famílias misturando a alegria da natalidade com a angústia
de uma doença ainda pouco conhecida, muito próximas, separadas apenas por
alguns corredores...
Ao
achar o quarto do meu velho, encontrei ele de muito bom humor, apesar de
debilitado por uma hemorragia causada por uma infecção na bexiga, ocorrida na
segunda-feira, dia trinta. Estava contando histórias, o que ele mais sabia
fazer, e atazanando a caçulinha dele, a minha irmã Érica, que havia dormido lá,
o acompanhando...
Ficamos
felizes ao nos ver, nós três.
Já
fazia algum tempo que eu não viajava para Franca e neste período, cerca de dois
meses antes dessa internação, El Cid havia caído na nossa chácara e foi
perdendo os movimentos das pernas gradativamente... Nos meus ensaios de me
deslocar para visitá-lo, passou todo este período.
Daí,
encontrei o meu pai em um leito hospitalar, com uma hemorragia causada por uma
infecção na bexiga, com uma sonda urinária e sem firmeza nas suas pernas. Mas,
ele estava muito bem humorado, apesar da situação brincando que quase
"partiu antes do combinado"...
Nos
despedimos da minha irmã e tomamos mais um café juntos, com as sobras que ainda
estavam no quarto do seu desjejum.
Conversamos
bastante, ele se atentou para o tamanho da minha barba e fizemos um dos nossos
programas preferidos, que lembro desde a minha infância: ouvir música clássica.
Como
havia levado o meu computador, entrei no Youtube e já recebi a escolha da
primeira obra da seleção que rolaria naquela manhã, a "Ave Maria" de
Schubert, executada pela orquestra do André Rieu, que ele adorava.
Ficamos
ouvindo em silêncio, uma seleção criteriosamente feita por ele, sendo
interrompida apenas pelas entradas regulares de enfermeiros e de uma
nutricionista. Inclusive, na entrevista feita por ela para o envio do almoço,
ficou exagerada uma das características do seu Edercides, as restrições de
paladar... Toda atenciosa e gentil, a moça perguntou para ele o que mais
gostava e o que não comeria de jeito algum! A resposta foi rápida, jiló... De
resto, "gostava de tudo".
Então,
a doutora, sugeriu um filé de frango com creme de milho. Ele disse que não
gostava de creme de milho e nada que tivesse molhos brancos e cremes na comida.
Decidido,
viria só o filezinho.
Como
entrada ela sugeriu uma sopinha de legumes... O meu pai sacramentou que também
não gostava de sopas, de nenhum tipo...
Ótimo,
sem sopa, então, mas poderia ser uma salada... Aí o velhinho concordou, mas que
não tivesse tomate com sementes, quiabo, folhas amargas e milho verde em grãos.
Chegaram
a um denominador comum e a nutricionista saiu brincando que, de fato, o meu pai
não gostava "apenas" de jiló...
Preparados
para passarmos uma noite juntos lá no hospital, havíamos até escolhido filmes
para assistirmos juntos no meu computador, quando passou o médico, apreensivo
com o quadro dele, mas mais preocupado em mantê-lo lá, por conta dos riscos de
contaminação.
O
meu pai recebeu alta e voltamos para casa depois do "chá da tarde",
britanicamente...
Em
casa, teve reunião dos Pennas, Limas e Cruvinel, numa boa prosa com a família
(em todo este período de isolamento as minhas irmãs se cuidaram muito para
continuar visitando os meus pais).
Neste
dia, fiz algo que jamais havia feito: dei banho nele.
Confesso
que já havia pensado nesta possibilidade de ajuda, muitas vezes antes, mas me
pegou de surpresa, pois ele pediu que apenas eu fizesse isso.
Foi
um dos momentos mais sublimes dos meus últimos anos, pois a sensação de
utilidade, de carinho, de confiança que senti, não consigo detalhar... Ele me
dava banhos, quando criança... Ele fazia movimentos cuidadosos para eu não me
assustar com a água morna batendo no meu corpo, me ensaboava com atenção e não
deixava eu me sentir envergonhado, mesmo quando já era um pouco maior... Isso
tudo veio para mim como um instinto e me senti literalmente útil, num reforço
de laços genéticos, que me marcou até hoje.
Secar
parte do corpo dele, vesti-lo cuidadosamente para não deslocar a sonda, pentear
os fios ralos do seu cabelo, foi sublime.
Depois
desse dia, foi aumentando a sua autonomia quanto ao banho, a ponto de fazer
tudo sozinho poucos dias depois, mas naquele fim de tarde, ele generosamente me
permitiu ajudá-lo na plenitude.
Acabamos
o "dia da mentira" com a relação mais verdadeira de amor, admiração e
respeito que pai e filho poderiam ter.
Via Franca
quarta-feira, 1 de julho de 2020
Quarentena - 1º dia
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