
Dez de abril... Sexta-feira...
Tivemos
uma manhã bem tensa, com a necessidade de chamar apoio no serviço de urgência
do convênio médico para auxílio em uma ocorrência com o meu pai.
Felizmente deu tudo certo.
Profissionais incríveis, principalmente pelo fato de se deslocarem em um
período crítico, em plena pandemia de uma doença altamente contagiosa e com
poucas esperanças, naquele momento, de uma erradicação rápida.
Foi inexplicável, mas durante
todo esse processo com El Cid, ninguém da nossa família se contaminou, mesmo
com muitas idas a hospitais e clínicas.
Sorte
ou providência divina, não sei bem, mas foi muito importante, já que toda a
nossa preocupação e atenção era com o estágio do câncer do meu pai.
Hoje, não sei o porquê, mas a
nossa conversa após o almoço descambou pelo futebol.
Especificamente, sobre a nossa
querida Veterana.
Uma das nossas saídas preferidas,
quando eu ia para Franca era assistir jogos no Estádio José Lancha Filho, o
Lanchão. Tínhamos um lugar preferido no setor coberto e o meu pai conhecia todo
mundo que estava lá (até quem narrava as partidas no rádio, o Jovassi).
Não importava se o time estava
bem ou mal, éramos frequentadores assíduos.
Eu sempre brinquei que torcer
para a A. A. Francana é quase uma doença na nossa família. É o nosso primeiro
time. Na realidade, é quase uma maldição, pois quase nunca teve protagonismo no
futebol.
A maior glória que vivemos juntos
foi o acesso do time para a elite do futebol paulista, em 03 de dezembro de
1977. Fui com El Cid e os meus dois avôs paternos, de carona na Kombi do Bonifa,
assistir os dois a zero contra o Araçatuba... Jogo incrível, invasão de gramado
para comemorar o título da segunda divisão e um temporal para lavar a alma de
todos os presentes, no final de tudo isso.
Essa saga de torcer para o clube
da nossa cidade, começou com o meu avô que foi diretor do clube, depois o meu
tio, também diretor por um tempo, o meu pai, eu, a minha irmã caçula e o
filhinho dela, o Gabriel.
Lembramos das histórias do meu
avô paterno enquanto dirigente, que acompanhava o time em vários jogos, sempre
de terno e gravata e com pouquíssima paciência e um imã para arrumar confusão...
Uma delas foi na cidade de Batatais.
O jogo começa bem disputado, mas
aos poucos, o time da casa começa a dominar a peleja, marcando um gol. E a
torcida não perdoa.
Como
o alambrado era muito próximo do campo, alguns torcedores vão até o banco de
reservas da equipe visitante (onde estava o meu avô Elpídio) e começam a fazer
troça com os integrantes da comissão técnica.
Ele,
já muito irritado, enrola um pedaço de jornal no formato de tocha, coloca fogo
com o cigarrinho de palha que estava fumando e mostra para a torcida.
Como
para bom entendedor, "pingo é letra", a torcida logo entende o
recado. Seu Elpídio mostrava a tocha de jornal aos torcedores, associando-a à
"lanterna" que o time da casa segurava no campeonato (em referência
ao último lugar da equipe).
Não
podia acontecer coisa diferente: a torcida ficou furiosa, empurrando a tela do
alambrado, querendo invadir o campo para pegar o nosso ilustre dirigente. Para
evitar mal maior, o policial que estava presente no local, dirigiu-se até o
banco de reservas e "convidou gentilmente" o ilustre representante da
agremiação visitante a acompanhá-lo.
Meu
avô deixou bem claro que só sairia de campo, acompanhado pelo delegado da
cidade (ele sabia que o mesmo não estava presente). O policial ficou
irritadíssimo, pedindo respeito à autoridade presente (no caso a dele).
O "quase preso" não pensou duas vezes e soltou a máxima:
- "Desde quando soldado é autoridade?"
O
guarda, ofendido, levantou o cacetete para bater no inoportuno senhor, mas foi
contido pelos jogadores reservas do time visitante.
Como o tempo ameaçou fechar,
naquele modesto campo de futebol, os dirigentes da casa resolveram
contemporizar e pediram ao policial que relevasse o desacato. O jogo chegou ao
final e a derrota esmeraldina apaziguou um pouco os ânimos.
E
meu avô nem precisou deixar a cidade escoltado pelo camburão (na realidade,
quase foi dentro dele).
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