Via Franca

Via Franca

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Quarentena - 10º dia

A imagem pode conter: Evanir Penna, sorrindo, estádio e atividades ao ar livre

Dez de abril... Sexta-feira...
                Tivemos uma manhã bem tensa, com a necessidade de chamar apoio no serviço de urgência do convênio médico para auxílio em uma ocorrência com o meu pai.

                Felizmente deu tudo certo. Profissionais incríveis, principalmente pelo fato de se deslocarem em um período crítico, em plena pandemia de uma doença altamente contagiosa e com poucas esperanças, naquele momento, de uma erradicação rápida.

                Foi inexplicável, mas durante todo esse processo com El Cid, ninguém da nossa família se contaminou, mesmo com muitas idas a hospitais e clínicas.
                Sorte ou providência divina, não sei bem, mas foi muito importante, já que toda a nossa preocupação e atenção era com o estágio do câncer do meu pai.

                Hoje, não sei o porquê, mas a nossa conversa após o almoço descambou pelo futebol.

                Especificamente, sobre a nossa querida Veterana.

                Uma das nossas saídas preferidas, quando eu ia para Franca era assistir jogos no Estádio José Lancha Filho, o Lanchão. Tínhamos um lugar preferido no setor coberto e o meu pai conhecia todo mundo que estava lá (até quem narrava as partidas no rádio, o Jovassi).

                Não importava se o time estava bem ou mal, éramos frequentadores assíduos.

                Eu sempre brinquei que torcer para a A. A. Francana é quase uma doença na nossa família. É o nosso primeiro time. Na realidade, é quase uma maldição, pois quase nunca teve protagonismo no futebol.

                A maior glória que vivemos juntos foi o acesso do time para a elite do futebol paulista, em 03 de dezembro de 1977. Fui com El Cid e os meus dois avôs paternos, de carona na Kombi do Bonifa, assistir os dois a zero contra o Araçatuba... Jogo incrível, invasão de gramado para comemorar o título da segunda divisão e um temporal para lavar a alma de todos os presentes, no final de tudo isso. 

                Essa saga de torcer para o clube da nossa cidade, começou com o meu avô que foi diretor do clube, depois o meu tio, também diretor por um tempo, o meu pai, eu, a minha irmã caçula e o filhinho dela, o Gabriel.

                Lembramos das histórias do meu avô paterno enquanto dirigente, que acompanhava o time em vários jogos, sempre de terno e gravata e com pouquíssima paciência e um imã para arrumar confusão... Uma delas foi na cidade de Batatais.

                O jogo começa bem disputado, mas aos poucos, o time da casa começa a dominar a peleja, marcando um gol. E a torcida não perdoa.
                Como o alambrado era muito próximo do campo, alguns torcedores vão até o banco de reservas da equipe visitante (onde estava o meu avô Elpídio) e começam a fazer troça com os integrantes da comissão técnica.
                Ele, já muito irritado, enrola um pedaço de jornal no formato de tocha, coloca fogo com o cigarrinho de palha que estava fumando e mostra para a torcida.
                Como para bom entendedor, "pingo é letra", a torcida logo entende o recado. Seu Elpídio mostrava a tocha de jornal aos torcedores, associando-a à "lanterna" que o time da casa segurava no campeonato (em referência ao último lugar da equipe).
                Não podia acontecer coisa diferente: a torcida ficou furiosa, empurrando a tela do alambrado, querendo invadir o campo para pegar o nosso ilustre dirigente. Para evitar mal maior, o policial que estava presente no local, dirigiu-se até o banco de reservas e "convidou gentilmente" o ilustre representante da agremiação visitante a acompanhá-lo.
                Meu avô deixou bem claro que só sairia de campo, acompanhado pelo delegado da cidade (ele sabia que o mesmo não estava presente). O policial ficou irritadíssimo, pedindo respeito à autoridade presente (no caso a dele).
O "quase preso" não pensou duas vezes e soltou a máxima:
- "Desde quando soldado é autoridade?"
                O guarda, ofendido, levantou o cacetete para bater no inoportuno senhor, mas foi contido pelos jogadores reservas do time visitante.

                Como o tempo ameaçou fechar, naquele modesto campo de futebol, os dirigentes da casa resolveram contemporizar e pediram ao policial que relevasse o desacato. O jogo chegou ao final e a derrota esmeraldina apaziguou um pouco os ânimos.
                E meu avô nem precisou deixar a cidade escoltado pelo camburão (na realidade, quase foi dentro dele).






Nenhum comentário:

Postar um comentário