Treze de abril... Segunda-feira...
Sempre a segunda feira era mais
tensa. Geralmente a ida na chácara no dia anterior, causava no meu pai uma
euforia que era dilacerada pela realidade do começo da semana.
Hoje,
não foi diferente.
Ele estava mais melancólico.
Sempre ressaltava que nós
deveríamos escolher bem as lutas que encararíamos, dar um valor maior àquilo
que merecesse gastar mais energia.
E parece que, mesmo com
esperanças, em certos dias, ele não estaria disposto a seguir no propósito de
continuar lutando. Essa manhã foi um desses momentos.
Isso me quebrava, pois eu tinha
certeza de que ele conseguiria superar, pois afinal de contas era El Cid, o
herói de batalhas impossíveis. Se tivesse vivido na Espanha do século XI, como
seu homônimo castelhano, também teria sido respeitado por mouros e cristãos...
Tanto que a segunda-feira foi
mais calada, mais taciturna. Enquanto dei aulas online (estávamos em plena
pandemia), coloquei umas músicas para ele ouvir. Vê-lo amuado, sentado no
jardim de inverno com as pernas recebendo um sol fraquinho, com um ventinho
frágil (a nossa "fresca") agitando os seus ralos cabelos, me deixou
um pouco melancólico.
Aquele senhor de respostas ágeis
e certeiras, muitas vezes engraçadas, estava calado, jururu. Era nesses
momentos que eu queria muito ler pensamentos para ser cúmplice na sua angústia.
Como
escrevi, o meu pai tinha uma resposta pronta para tudo... Quando alguém dizia
que possuía algo igual ao que ele tinha (uma camisa idêntica, por exemplo), ele
logo soltava que não poderia ser igual, pois a "dele já estava paga"
e, de fato, odiava comprar algo à prestação (passou a vida inteira sem ter um
cartão de crédito).
Gostava
de usar certas passagens sem explicação lógica para nos ensinar algo, também
através do medo que sentíamos daquilo que poderia ser sobrenatural.
Uma delas foi a surra que o
Carlinhos, seu primo direto, levou na casa da tia Maroca, ensinando que não
devíamos desrespeitar os nossos pais. O grande barato é que verdadeira ou não,
eu acreditava nela. Tanto que, enquanto criança e ia na casa dela, evitava
ficar sozinho na sala de televisão do ocorrido. Com aquele jeito sério e
convincente, El Cid contava que o Carlinhos, já adolescente, ao ser repreendido
pela mãe, foi mal-educado e a xingou bastante (estava numa fase bem rebelde) e
foi espairecer numa salinha que havia, contígua à cozinha, mas já na parte de
fora da residência. Na época não havia aparelho de TV, mas tinha um sofá, onde
ele cochilou.
O primo do meu pai contou que já
no cair da noite, na penumbra do local, sentiu algo se aproximar e que lhe deu
uma tremenda surra, guardada na sua lembrança até a idade adulta. Como a porta
estava trancada, jamais poderia ser alguém da sua família, pois foram até o
local, assustados com os gritos dele, logo após o ocorrido, com a porta sendo
destravada por ele, no lado de dentro.
O mais impressionante é que,
mesmo com a dor que estava sentindo, o seu corpo não tinha marcas, nem sinais
que esclareciam alguma ação daquele tipo.
Eu que desde pequeno, já tinha
medo de cobras, panela de pressão e "almas", convivia sempre com um
pavor de tomar a mesma sova recebida pelo Carlinhos, após alguma malcriação ou
ato intempestivo contra os meus pais. Era aprontar alguma traquinagem e ter a
preocupação de não ficar sozinho em algum cômodo semiescuro.
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