Sete de abril... Terça-feira...
Dia difícil, com muitos
perrengues por conta das limitações dele, o que dificultava muito a locomoção
até o banheiro... O fato de ficar tentando reter a urina, poderia causar
infecções que, no seu estado, poderiam trazer muitos agravantes.
Lembramos da passagem dele pelo
Rio de Janeiro, em 1959, quando tinha de 22 para 23 anos...
Ele sempre foi apaixonado pela
carreira militar, desde criança, passando pelo serviço militar obrigatório no
Tiro de Guerra de Franca, mas o seu grande objetivo era ingressar na Marinha...
Junto com outros amigos de
Franca, se alistou e foi para a então capital do país (Brasília só foi
inaugurada em 1960), alojando-se no quartel da Penha...
Eu achava engraçado quando ele
contava que ao ser questionado se sabia nadar, havia perguntado se precisava
ser um bom nadador, já que esperava que a Marinha tivesse barcos... Eu amava
esse espírito gozador dele.
Disse que foi muito diferente do
que esperava... Não conseguiu se adaptar... Os seus comandantes diretos, não
gostavam dos paulistas na corporação... Eram cerca de 300 que, segundo ele,
sofriam muito por ser de São Paulo, com cargas de serviço exageradas, além do
não atendimento de pedidos para visitar familiares, hostilidade dos outros
praças e oficiais, entre outras coisas.
Mas, a situação dele,
especificamente, mudou bastante quando conseguiu ganhar a admiração e confiança
do Capitão Eronildes... Contou-me que a tropa estava toda em formação quando o
comandante anunciou que precisava de três voluntários para descarregar um
caminhão de sacas de arroz que havia chegado... Ninguém, repito, ninguém se
prontificou... Apenas o meu pai, se voluntariou, afinal de contas, ele havia
trabalhado por anos no Atacadista Abrão Jorge, em Franca e sempre ajudava os
"chapas" a descarregar caminhões, quando não estava muito ocupado
organizando o estoque (ele sempre foi muito solícito e camarada)... O capitão
escolheu mais duas pessoas e os três finalizaram o trabalho... Como recompensa
ganharam folgas, algo muito raro naquela força armada, no final da década de
50.
Inclusive, nessa folga, ele não
tinha autorização para visitar a família em Franca, mas foi... Não só, não
avisou o comando, como viajou fardado, o que não era permitido (era a única
forma de não pagar as passagens de trem, pois o soldo não era muito).
Pensou que tinha dado uma volta
nos seus superiores, mas um delator o fez ser descoberto, mas mesmo assim
continuou querido pelo Capitão Eronildes... Inclusive, foi destacado para a
"Polícia da Marinha", aliviando um pouco o excesso de trabalho que
tinha...
Era interessante ouvir dele, que
ao sair para se divertir nas noites do Rio de Janeiro, tinha horário para
entrar no quartel, por isso quando não conseguia chegar até o fechamento do
portão, tinha que dormir nos trens da Central do Brasil até dar a hora de
entrada, no dia seguinte... Dizia que tinha muito medo de cruzar com os
malandros, habitués do entorno de algumas favelas cariocas, bons de briga e
sempre armados com navalha e que não gostavam de fardados. Se acontecesse
alguma contenda com eles era recomendado correr, pois se escondessem ambas as
mãos, não havia como saber qual delas viria com a arma branca... Aí, “ já
era”...
Dizia também que chegou a treinar
no Olaria, em curtas folgas que tinha e uma das histórias que eu mais curtia
era ouvir que o time chegou a ser convidado para participar de um jogo treino
no Maracanã, contra a seleção brasileira, mas dias antes da partida, não tivera
permissão para sair do serviço e não pode jogar... Até hoje, eu penso nessa
frustração de um cidadão que amava futebol...
A barra pesada na vida na caserna
até era suportável, mas o meu pai sempre contava que as injustiças que ele
presenciava mexiam muito com ele... Estava aquartelado, mas o objetivo dele
sempre foi seguir carreira na Marinha Mercante e sempre foi desestimulado, pois
além de não ser descendente de oficiais, era também "muito moreno"
para conseguir chegar a postos maiores... Se emocionava muito ao lembrar disso
e sempre contava a história de um negro que passou em primeiro lugar no
concurso, mas foi reprovado no "exame de saúde"...
Por tudo isso, não aguentou
permanecer... Quando quis "pedir baixa", junto com outros paulistas
da região de Franca, ficou sabendo que teria que cumprir três anos, antes da
dispensa... Não suportaria.
Daí, aconselhado pelo Capitão
Eronildes, que gostava muito dele, foi até o Ministério da Marinha, onde foi
aconselhado por um tenente de extrema confiança do oficial a fazer bagunça,
causar transtornos na caserna, tornar-se indesejado para ser dispensado pela
própria corporação... Só tinha que tomar cuidado para não fazer algo grave que
pudesse gerar alguma detenção...
E assim, El Cid e seus camaradas
paulistas arranjaram muita confusão até serem desligados da corporação...
A
Marinha perdeu um excelente marinheiro, quiçá um oficial maravilhoso, mas a
zaga do Caramuru teve de volta o seu "becão" de responsa...
Ah, e ele sempre contou com
orgulho uma passagem interessante no Maracanã, no dia 13 de maio de 1959,
quando o Júlio Botelho levou um estádio lotado das vaias aos aplausos... Neste
jogo contra a Inglaterra, em comemoração ao título mundial da seleção
brasileira, do ano anterior, fez a plateia ficar irada com a não escalação do
seu maior ídolo, na época, o Garrincha (estava fora de forma), ao mesmo tempo
que viu o ponta direita do Palmeiras, Julinho, dar um verdadeiro espetáculo...
E, o meu pai estava lá...

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