Via Franca

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sexta-feira, 17 de julho de 2020

Quarentena - 17º dia

Dezessete de abril... Sexta-feira...
Hoje, o chuveiro não esquentou. Como costumo tomar banho logo após acordar, teve que ser com água fria mesmo.
Falei com o meu pai e ele sentenciou que a resistência provavelmente havia queimado. Ele já devia ter trocado, na vida, dezenas de resistências, principalmente da duchinha Corona do local que morávamos, na Vila Nova, nos fundos da casa dos meus avós maternos. Era aquela da propaganda que prometia um "banho de alegria, num mundo de água quente", mas que, no inverno frio de Franca, na década de 1970, não esquentava quase nada e ainda tinha, inexplicavelmente, um fiozinho de água gelada que descia por um dos buracos. Depois, os amigos não entendem o porquê da minha ojeriza à dias frios.
Só que, nas suas condições, o meu pai não conseguiria mais consertá-la. Tive que chamar o meu cunhado, pois essa habilidade não veio no meu DNA (podem me condenar, sim, sei que é vergonhoso, mas não foi hereditário).
Seu Edercides, o "faz tudo", sempre foi curioso e insistente por natureza... Tudo o que quebrava passava pelas suas mãos, antes de seguir para algum técnico. Se desse um jeito, mesmo que fosse no estilo MacGyver, não precisaria "gastar dinheiro sem necessidade". Só tinha uma pequena caixa de ferramentas, por isso sempre reclamava que não tinha as peças certas para um conserto perfeito. Era engraçado ver as soluções que ele dava para os problemas.
Outra característica dele era aproveitar tudo o que podia. 
Algo só era jogado fora, se não tivesse recuperação ou nenhum reaproveitamento, mesmo longe da sua função original... O conceito ecológico já estava embutido na cabeça e na consciência do meu pai, desde que ele se conhecia por gente.
Por um bom tempo, até parafusos e porcas que ele encontrava na rua, levava para casa, pois "sempre poderia ser útil"... E ficava radiante quando algum desses itens se encaixava com outro que havia achado anteriormente. Tenho até hoje, um prego gigante de dormente, provavelmente da Estrada de Ferro Mogiana, que ele achou na década de 1980, próximo da pracinha da Jussara (só quem é de Franca entende esta referência).
Outra coisa bacana dele era levar o jornal do escritório da usina de laticínios que trabalhava, para casa, no final do expediente, pois assim não viraria descarte e ainda nos proporcionaria informações valiosíssimas, ampliando também o nosso gosto pela leitura, principalmente de textos jornalísticos mais complexos...
Mesmo autorizado pelos diretores, ele esperava todos saírem para ter a certeza de que ninguém mais iria ler algum dos cadernos da Folha de São Paulo... Sempre foi muito consciente e atento a pequenos detalhes. 
Em Franca, não eram muitos os que tinham este privilégio, pois chegavam poucos exemplares do matutino, geralmente no ônibus da Cometa, e só no final da manhã... Lembro-me que ficávamos eu e a minha irmã do meio, a Eliane, aguardando a chegada dele, após às seis da tarde, com o calhamaço de notícias, informações e entretenimento, que aproximava a capital dos quatrocentos quilômetros da nossa cidade. Quando ele demorava um pouco mais para chegar, já sabíamos que ele estava esperando a última pessoa sair de lá, para ter certeza de que o jornal estaria liberado... Nunca perguntava se podia levar, antes de todos saírem (repito, mesmo tendo a autorização dos donos da Jussara para ficar com o jornal do dia).
E, no domingo, a diversão era ler o Comércio da Franca", que tinha mais páginas de classificados do que notícias da cidade.
Assim a vida seguiu, com mudanças que ele nunca assimilou, principalmente o quase fim dos jornais impressos e dos parafusos perdidos nas ruas.


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