Vinte e sete de abril...
Segunda-feira...
Segundas
são sempre segundas... Parece que o astral de El Cid cai um pouquinho após o
final de semana... Não é legal acordar e ver ele reclamando que as pernas estão
mais fracas e que, talvez, nunca mais volte a andar sem a ajuda do andador ou
de muletas. Isso me incomoda em demasia.
Dei
corda no relógio de parede também.
É
uma tradição de família, este lance de relógio com carrilhão. Todas as casas do
lado da parentada paterna tem os seus... Uns mais requintados e estrambólicos,
outros menos, mas em todas há a presença do anunciador de horas. O mais antigo
está na casa da minha tia, herança do meu avô, que vai ficar comigo. Tem bem
mais de cem anos e já não funciona direito, apesar de avaliado em alguns
milhares de reais por um antiquário. Não tenho a intenção de vendê-lo, mas não
aqui no meu minúsculo apartamento não há um pé direito razoável para
pendurá-lo, por isso ele segue no seu local original, lá no bairro da Ponte
Grande, em Guarulhos, com promessa de “avisar” ainda mais gerações dos Pennas
(já passaram quatro, pela sua voraz caixa de imbuia).
O
do meu pai, é mais novo, com caixa de cerejeira, mais clara, e que anuncia a
sua presença a cada quinze minutos... Três badaladas para um quarto de hora,
seis para meia hora e assim por diante, sempre finalizando as horas cheias com
o total de badaladas extras relativos ao número delas.
A
minha vida inteira vi o meu pai dando corda nele, sempre às quartas-feiras,
zeloso para não tirá-lo do prumo e, com isso, não interromper o seu
funcionamento. Depois, de parar algumas vezes, adaptamos-o aos domingos, para
receber impulsionamento, pois quem irá fazer isso, será o meu cunhado. Mas,
como estou por aqui, sou lembrado pelo meu pai para dar corda na segunda de
manhã, com os raios solares invadindo a porta de vidro da sala de jantar (que
nós, caipiras, chamamos de copa) da casa lá de Franca.
Seu
Edercides tem um outro relógio também, que me foi prometido, mas que só era
usado em ocasiões especiais, como jantares em restaurantes, missas e festas
mais sociais... É um Technics de pulso, que funciona com o balançar do braço,
que muitas vezes, enquanto adolescente foi surrupiado para ser ostentado em
alguma ocasião que eu precisasse impressionar alguém (bons tempos que um
relógio suíço ainda rendia alguma admiração por uma garota ou amigo).
Nunca
curti muito usar relógio e, hoje, ainda menos, pois com a gatunagem aumentando
consideravelmente e o celular com os seus alarmes me avisando até da hora dos
remédios e programas televisivos preferidos, ele ficou ainda mais descartável,
sem utilidade que não seja decorativa.
Mesmo
assim, ainda tenho nos meus contatos da agenda telefônica, os números de alguns
relojoeiros, como o tradicional e conceituadíssimo Olavo, lá de Franca, um dos
poucos que confiaria a tarefa de manutenção nos carrilhões da família, sem medo
de ser enganado ou ter a substituição indevida de peças, das duas relíquias...
E,
parafraseando o meu sempre bem humorado pai, "não há nada completamente
errado no mundo, pois até mesmo um relógio parado, vai estar marcando a hora
correta, duas vezes por dia"...
Via Franca
segunda-feira, 27 de julho de 2020
Quarentena - 27º dia
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