Vinte e seis de abril...
Domingo...
Sempre no domingo ele acordava
melhor.
O fato de irmos para a chácara,
mesmo em plena pandemia, o animava.
Piadista, era um contador de boas
histórias... Adorava relacionar os fatos do cotidiano com os causos dele. Até
hoje, quando eu e a minha esposa falamos algo que não é muito espirituoso, mas
que tem uma certa graça, cantamos "Seu Edercides lá, laralará, lalá”,
imitando a famosa música do Sílvio Santos quando chamava os seus jurados no
Programa de Calouros.
Uma das piadas que ele sempre
contava era a da galinha que estava fugindo do alagamento e foi subindo nas
partes mais altas do poleiro, depois passou para o telhado da casa e da
cumeeira pulou para a antena, mas quando água cobriu tudo e foi chegando já no
corpo dela, foi esticando o pescocinho na medida que o seu corpo foi ficando
submerso... Daí, quando perguntávamos: "e aí, pai, o que aconteceu",
ele arrematava, "ué, ela morreu". E desmanchava-se num largo sorriso,
olhando para os lados, esperando a aprovação geral...
Outra história que eu curtia
muito era de um político populista e muito popular nas décadas de 1950 e
1960... Ele adorava contá-la...
Vou reproduzir aqui, mas vou
mudar um pouco a narrativa e usar outros nomes para ele e para as cidades, em
questão.
Como hoje, os candidatos a algum
cargo político de antanho, prometiam mundos e fundos, usando uma boa oratória e
abusando de estratégias já consolidadas pelo tempo, para conseguir minguados
votos que poderiam decidir uma eleição.
Apesar da farta falácia e de
discursos cada vez menos convincentes da maioria deles, nós eleitores, somos
protegidos por uma legislação eleitoral, que deixa cada dia mais difícil, o
abuso de práticas incoerentes com uma sociedade democrática.
Inclusive,
até na última eleição, continua em grande número, os candidatos folclóricos,
que marcam mais pela sua excentricidade do que pelos projetos de governo.
Meu
pai dizia que um deles, estudioso convicto dos métodos populistas das décadas
de 40, 50 e 60, principalmente de Getúlio, Ademar de Barros, Juscelino e Jânio,
ainda via naquela maneira arcaica de fazer política, uma chance de se eleger a
deputado federal.
Montou
vários comitês no interior, fazia carreatas por pequenas cidades, bebia café no
copo do eleitor, pegava criancinhas pobres no colo, entre tantas outras
estratégias, que ainda são permitidos pelo TRE (por "debaixo do
pano", ele ainda conseguia um caminhão de terra, meio metro de areia e
outros 'agrados" para um ou outro correligionário mais confiável).
Com
isso, era conhecido em cada vez mais lugares deste interiorzão.
Até que, em um desses dias de intensa campanha, decide aumentar a sua
capacidade de atuação.
Aluga
um Cessna, com piloto e tudo, e arma uma estratégia infalível: deslocar-se de
avião entre muitas pequenas cidades, fazendo comícios relâmpagos de poucos
minutos cada um.
Decolou
bem cedinho, da cidade de São Paulo, e escolheu uma área com dezenas de
pequenos municípios, bem próximos entre si.
Antes
do almoço já tinha discursado em seis cidadezinhas.
Ao
descer na sétima, viu que os seus assessores montaram o palanque na pista do
próprio aeroporto.
Economia
primordial de tempo!
Desembarcou
rapidamente e já se dirigiu ao microfone:
-
"Povo de Santa Rita..."
O
seu auxiliar, mais que rapidamente, corrigiu o nosso “nobre” candidato, já que
Santa Rita, seria a próxima cidade.
-
"Doutor, aqui é Três Porteiras!"
E
o candidato sem pensar, ainda com o microfone aberto:
-
"Ah, é tudo a mesma porcaria" e continuou a fala no parlatório...
Elegeu-se,
mesmo tendo perdido alguns preciosos votos em Três Porteiras!