Dezesseis de abril... Quinta-feira...
Fiz o almoço, mas ele sempre pedia para retirar as sementes do tomate. Como usava prótese, elas entravam embaixo dela e machucavam muito, causando ferimentos que dificultavam a sua mastigação.
Antes dos quarenta anos ele já havia retirado todos os seus dentes. Lembro-me, no final da década de 1970, de vê-lo sofrer bastante com uma nevralgia crônica que fazia a sua mandíbula doer bastante, refletindo principalmente na arcada dentária. Para solucionar foi ao dentista e fez a extração de todos eles. Esse fato, sempre me impressionou, principalmente por ver a minha mãe com objetivo oposto, sempre tentando salvar a todo custo, qualquer dente que estivesse sob risco de ser perdido.
E a parte mais interessante, é que ninguém percebia que o meu pai usava dentaduras, nem tampouco ele precisava de fixadores ou qualquer outro produto para dar mais segurança no dia a dia. Quando criança, eu só achava engraçado ver ele tirando a "chapa" para fazer a escovação (dormia com ela na boca).
A tarde foi tranquila... Como sempre, conversamos bastante, tergiversamos mais ainda, principalmente quando começamos a lembrar das histórias em algumas viagens... Diz o ditado que "quem conta um conto, aumenta um ponto"... Então, para dirimir algumas dúvidas sobre isso, recorremos aos álbuns de fotografias que são guardados embaixo do rack da televisão, na sala.
O grande barato da minha família é que as imagens feitas não ficam apenas na memória do celular ou na nuvem digital. Eles têm o costume de imprimir uma parte delas, o que é muito legal, pois conseguimos relembrar fatos que não seriam facilmente recuperados apenas buscando a galeria digital. O portfólio fotográfico facilita muito as nossas conexões intrafamiliares e a consolidação do termo "lugar" num sentido mais geográfico da palavra... Memorabília, se é que me entende!
E foram várias viagens em família, desde a Riviera de São Lourenço (anual, nos últimos anos), Maceió (a primeira dele de avião), onde ficamos sabendo do acidente aéreo de um aeroplano pilotado por um dos meus melhores amigos, o Marquinhos, assistindo o Jornal Nacional, o Ano Novo em Recife, onde tivemos que comer cachorro quente na Praia de Boa Viagem, pois tudo estava fechado um pouco antes da queima de fogos (o que estava aberto tinha necessidade de reserva, algo que não nos atentamos), as idas para Fortaleza, passando temporadas no meu apartamento na Aldeota, que não tinha chuveiro quente em nenhum dos banheiros, algo que deixava El Cid indignado. Lembramos que ele queria pagar a compra de um chuveiro elétrico, mas eu sempre negava, pois o Ceará é a "terra do Sol" e, por ser quente o ano inteiro, não havia a necessidade de água aquecida no banho.
Numa viagem para a Paraíba, o meu pai ficou maravilhado com as belezas das praias dos arredores de João Pessoa, da malandragem dos "guaiamuns garçons" de Goiana (cidade pernambucana, mas na divisa com o estado que visitávamos) que o proprietário de um restaurante, o Buraco da Gia, dizia ter treinado eles para dar cerveja aos turistas. Nesse mesmo dia, demos muitas risadas, lembrando que ele ficou indignado que o levamos para Tambaba, uma praia de naturismo. Claro, que ficamos do lado onde ficar "como viemos ao mundo" era apenas opcional e não vimos nenhum "peladão", lá.
Uma paradinha para eu buscar uma xícara de café.
Voltamos para os álbuns e continuamos a folheá-los, recordando as idas para a baixada santista, nos anos 80 e 90, principalmente Praia Grande e Mongaguá. Aqui cabe um adendo, pois mesmo sendo de família católica, inclusive fui coroinha até os 13 anos, eu sempre gostei dos cultos e ritos de outras religiões. Na minha infância, eu ia na missa na mesma proporção que tomava passes em um centro kardecista, frequentado pela minha tia Luci. Gostava também de ver as giras e as festas de religiões afrobrasileiras em Franca. Por isso, nessas viagens para a praia, no final de ano, meu pai sempre me acompanhava para ver os terreiros que eram montados na areia, admirando muito os batuques, as danças e os trajes dos religiosos do candomblé e da umbanda. El Cid era uma pessoa incrível e muito esclarecida em assuntos dogmáticos, sem preconceitos, mesmo sendo criado em uma família muito intolerante nessas questões (os meus avós paternos eram bem preconceituosos quanto a outros credos).
Gostava muito de ir também para a capital, visitar a Paulicéia, pois as idas à casa dos meus avós em Guarulhos eram tão frequentes quanto os "bate e volta" para Ribeirão Preto, cidade que ele lembrava o nome de todas as ruas do centro e das suas principais avenidas desde a saída da Rodovia Cândido Portinari.
Ele amou o Mato Grosso do Sul, desde Bonito até o Pantanal, onde gabava-se ter sido o único a pescar piranhas para o caldo servido no jantar da Fazenda São Francisco. Todos os peixes no anzol das fotos feitas com turistas no barco foram fisgados por ele.
Na nossa primeira ida para as Serras Gaúchas, no voo para Porto Alegre, eu, a minha irmã Eliane e o meu cunhado não conseguimos embarcar por conta de um overbooking motivado pelo acréscimo de passageiros extras no momento do check in. A situação já foi desagradável, pois tínhamos até assento reservado, mas o que deixou o meu pai mais irritado foi saber que os "passageiros de última hora" era o Ronaldinho Gaúcho e alguns "parças" dele. Seu Edercides passou a odiá-lo após isso. E, durante a rota, aconteceu um paradoxo com a parte da família que embarcou: a minha irmã caçula queria ir até o jogador, sentado no fundo do avião, pegar um autógrafo, enquanto o meu pai queria ir lá, tirar satisfações... Não rolou uma coisa nem outra.
Depois de boas risadas, finalizamos vendo mais cliques familiares feitos no apartamento de um grande amigo meu, o Toninho, num Réveillon na década de 90, em Floripa, outros em Porto Seguro, onde fui travestido de mulher por alguns alunos que encontramos lá e mais algumas saídas esporádicas que sempre me lembraram que esse meu gosto de viajar, conhecer novos lugares, experimentar sabores e aromas, conversar com os locais, foi influência dos meus pais.
Para nós, viajar nem sempre foi procurar novas paisagens, mas ter um novo olhar sobre o espaço que vivemos.