Oito de maio... Sexta-feira...
Véspera da festinha de dois anos
da Dudinha, a netinha dele.
A comemoração seria na casa da
minha irmã caçula, a Érica, mesmo quase dois meses depois do aniversário da
minha sobrinha, apenas para "os de casa"...
Como nos outros dias, El Cid,
estava reclamando um pouco da demora em poder voltar a andar, naturalmente, sem
apoio ou ajuda do andador.
Ele possuía uma característica
que lhe era bem peculiar: uma facilidade invejável de decorar nomes... Se
orgulhava de saber todas as capitais dos países do mundo. Era divertidíssimo
conversar sobre isso com ele, pois além de me citar o nome da cidade, também
contava alguns detalhes sobre a maioria delas, principalmente as suas
preferidas, aquelas que já existiam na Antiguidade.
O amor dele por mapas era único
também. Tinha um atlas e um guia turístico que geralmente consultava quando
ouvia algo sobre alguns lugares e, mesmo quando os conhecia bem, ia dar uma
conferida lá...
Antes de qualquer viagem nossa,
ele pegava o Guia Quatro Rodas dos anos 2000 para verificar as cidades que
passaria no caminho para contar histórias delas no carro, pois na última década
virou passageiro, com muito tempo para ficar "observando as
paisagens" no deslocamento, característica que herdei dele, com certeza.
Desde criança, nos “Dinos” da
Viação Cometa, El Cid vinha narrando as localidades que estariam no percurso,
até o terminal rodoviário da Praça Júlio Prestes (aquele com acrílicos
coloridos, bem psicodélica, que não existe mais). As anunciava, com boa
antecedência de distância, geralmente com alguma história pessoal, naquelas que
ele já havia pisado: Batatais, Brodowski, Ribeirão Preto (a sua preferida, que
nutria "falsa rivalidade"), Cravinhos, Porto Ferreira, Pirassununga,
Leme, Araras (que a Érica quando criança perguntava se era "Araras
Quaras"), Limeira (a parada mais antiga para banheiro, onde ele se
levantava antes mesmo da chegada, para deixar bem claro que conhecia bem o
trajeto), Americana, Sumaré, Campinas, Jundiaí e São Paulo.
Quando eu viajava sozinho, mesmo
fora do Brasil, ele usava os seus livros e material de consulta para conversar
comigo sobre onde eu iria. Era detalhista, pois gostava de saber sobre pequenos
trechos, específicos, que eu poderia não ter me atentado. Era extasiante quando
me apontava algum detalhe que tinha fugido no meu planejamento e íamos
pesquisar juntos, no meu celular ("filho, dá uma olhada sobre isso").
Por falar em viagens, era o único
- notem a palavra que usei, o único - que me pedia para ver as fotos das minhas
viagens. Como adorava ver fotografias...
Eu “viajava novamente” quando as
mostrava para ele. Inclusive, em muitos lugares os cliques eram feitos para uma
posterior conversa com ele.
Lembro-me quando fui para o meio
oeste americano, em julho de 2018, e fotografei Monument Valley de diversos
ângulos. Divertimo-nos muito, depois, tentando lembrar de filmes de faroeste
rodados naquelas paisagens.
Eu tirava muitas fotos para ele,
pois tinha a certeza de que o meu pai, viajava pelo meu olhar. Eu sabia que ele
jamais conseguiria conhecer as paisagens das novelas de cavalaria, o solo onde
Cristo percorreu, os desertos de beduínos e tuaregues, os portos de onde saíam
barcos vikings, as montanhas disputadas por indígenas e colonos americanos, as
cidades das "mil e uma noites", a Itália de Puccini... Então, eu
viajava também por ele.
Os velhos álbuns de fotografia,
cuidados com esmero e guardados até hoje dentro do móvel da sala são
testemunhas da sua paixão em registrar momentos importantes da nossa família.
Temos uma linha de tempo rica, organizada por ele.
Uma pessoa que gostava de ficar
em casa, mas também amava lugares distantes. Com isso, assistia muita TV e curtia
programas de viagens e documentários, onde o "Brasil Visto de Cima"
era um dos seus preferidos, religiosamente assistido todos os dias que
passava... Quando eu estava em Franca, víamos juntos...
Ele adorava "trocar uma
ideia" sobre os locais que eu já havia visitado e que era mostrado no
programa ("você viu isso lá, filho", "não é aquilo que apareceu
na foto que você me mostrou").
Confesso que até hoje, não
consigo assisti-lo mais. Dá um aperto no peito.
Tenho que superar isso.
O meu amor pela história e
geografia vem bastante da influência desse meu professor...
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