
Quatro de maio... Segunda-feira...
Levantamo-nos bem cedo para fazer
uma tomografia no Hospital do Câncer, de Franca... Quem nos levou, dessa vez,
foi a minha mãe... O medo do Covid-19 era visível, mesmo assim, sentimos um
pouco de descaso por parte de muitas pessoas. Parecia que poucos, como nós, estavam
levando a sério o isolamento e as recomendações para evitar o contágio. Ficamos
tristes, por esta situação.
No hospital, fizeram umas
marcações no tórax dele, como se fossem um X de alvo para atiradores... Demos
muitas risadas disso, pois a sugestão era dar estilingues para os moleques lá
de casa, deixar El Cid sem a camisa e usá-lo como "alvo móvel" para
tiros de castanha de coquinho catarro... Isso rendeu piadas para quase uma
semana.
Ele sempre curtiu muito o tempo
que teve como militar, ou no tiro de guerra de Franca ou na Marinha, no Rio de
Janeiro. Gostava muito da ordem, da hierarquia e, principalmente, de armas, em
geral.
Sempre teve várias e orgulhava-se
de uma Winchester que levava sempre consigo nas pescarias, quando solteiro
(teve que vendê-la depois do meu nascimento, mas ainda continuou com uma
Mauser, escondida no guarda-roupa).
Uma dessas histórias, que ele
contava foi numa viagem de diversão com outros amigos (iam em Lambretas) para o
Rio Sapucaí Mirim, que atravessa municípios vizinhos da nossa cidade, ficaram
dando tiros na superfície da água, só para ouvir o "assovio" que o
projétil fazia ao se distanciar.
Claro que isso, chamou a atenção
do segurança de uma fazenda próxima, que se dirigiu até o local para verificar
o que estava ocorrendo (a caça era proibida na área). Ele contava que o homem
chegou no grupo, os repreendeu e disse que teria que confiscar a arma.
Um dos amigos do meu pai,
conhecido como Barbeiro, que estava com a Winchester na mão, disse
categoricamente, que seria um "ato pouco inteligente" tentar retirar
sozinho e desarmado, uma arma das mãos de quatro desconhecidos...
Parece que o argumento foi bem
razoável, pois o segurança foi demovido da sua ideia original, mas mesmo assim
saiu ameaçando o grupo de denúncia na força policial. Claro, que eles nunca
mais voltaram ao local e, acredito, seriam incapazes de atirar em alguém (pelo
menos, em relação a El Cid, tenho certeza disso).
Após a morte do meu avô, ele
também herdou um 38 cromado que foi entregue na delegacia, junto com a outra
pistola, depois do decreto de desarmamento, de anos atrás... Era muito
engraçado, pois sempre que íamos viajar, ele brincava que não podia esquecer de
levar o "38 dele"... No caso, era o chinelo (ele calçava 38)...
Sempre admirei o bom humor e a
seriedade dele e, mesmo eu odiando armas, gostava de ouvir as suas boas
histórias sobre elas.
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