Cinco de maio... Terça-feira...
Seguem os exames preparatórios
para a radioterapia... A maior esperança do meu pai é voltar a caminhar sem o
uso de apoio... Ele chegou até a confidenciar para a minha mãe, que se não
voltasse a caminhar, perderia todo o sentido de "continuar prosseguindo".
A nossa família é bem sólida,
muito valorizada por El Cid e pela dona Elenice, mas mesmo eu e as minhas irmãs,
criados de maneira idêntica, crescemos com características e personalidades
muito distintas.
Como primogênito sempre fui o
"centro das atenções", mas sofri um baque com o nascimento da Eliane,
minha primeira irmãzinha, quando tinha cinco anos de idade.
Inicialmente, tive muita
curiosidade e até curti, mas quando percebi que deveria dividir as atenções
gerais também com aquela pequenininha, foi terrível... Baixou o ciúme... Nunca
me deixaram esquecer que no primeiro aniversário dela, a minha mãe teve que
espalhar os brinquedos pelas duas camas, cantar parabéns para os dois e fingir
que comemorava alguma coisa também para mim. Os parentes tinham até se
acostumado com os ataques de choro e birra, quando a pequenininha recebia mais
atenção.
Independente disso, crescemos com
aquela boa cumplicidade de irmãos (uma exigência dos meus pais), sempre unidos,
socializando brincadeiras, aprontando muito e sofrendo todas as consequências,
também juntos, das incontáveis travessuras.
As brigas eram comuns, mas foram
diminuindo com o tempo.
Até que, surge uma nova
pessoinha.
Quatro anos mais nova que a
Eliane, era ainda mais mimada e protegida do que nós, os mais velhos.
Sempre foi bonitinha, calma e
muito meiga, por isso todos se encantavam com ela, principalmente nós, seus
irmãos.
Morávamos numa casa muito
pequena, de fundos, na Rua Francisco Társia, bem no coração da Vila Nova,
construída no quintal do terreno da casa da minha avó. Tinha dois quartos que,
antes da chegada da caçulinha, eu tinha exclusividade em um deles e o outro era
dividido entre os meus pais e a Eliane.
Com mais uma criança na casa,
comprou-se um beliche para acomodar a Eliane e eu no quarto que antes era só
meu e o bercinho passou a ser ocupado pela Érika (só depois, foi Érica).
É claro que essa obrigação de
dividir o espaço do pequeno quarto, fez surgirem novas rusgas entre os irmãos
mais velhos. Brigava-se por quase tudo, mas principalmente pelas preferências
distintas, em relação à iluminação na hora do sono. Eu que dormia na parte de
cima e tinha a luz bem no meu rosto, queria a lâmpada apagada. A minha irmã do
meio que, por dormir embaixo, havia uma pequena penumbra proporcionada pela
presença da cama de cima e tinha muito medo do escuro, queria o quarto
iluminado (dizia que a escuridão lhe dava "falta de ar"). E a
caçulinha, no quarto dos meus pais, reclamava que não conseguia dormir por
conta da bagunça no nosso quarto.
Hoje, todos lembramos com graça
disso tudo, pois chegava a ser uma cena de "comédia pastelão"... Eu
descia do beliche e apagava a luz. A Eliane me esperava subir de volta, me
cobrir, e ia até o interruptor e a acendia. Eu descia, apagava-a novamente,
ameaçava a minha irmã e voltava para a cama... Ela esperava um pouco e acendia
de novo.
E, assim a noite avançava, com um
fim só quando algum dos dois cedia.
Mas, a história que eu e meu pai
lembramos deste imbróglio, foi um dia que ninguém cedeu e, por isso, começou
uma algazarra infernal. Daí, El Cid, bem impaciente, exaurido por um dia
cansativo e influenciado pelos pedidos da irmãzinha menor que não conseguia
dormir (na realidade eu acho que ela queria estar conosco, no fuzuê), resolve
intervir.
Vai até o quarto, chama a nossa
atenção de maneira ríspida e decreta:
- "Se eu ouvir mais um pio
neste quarto, os dois vão dormir quentes (é fácil entender o que é dormir
quente, né)!"
Quando tudo levava a crer que a
paz estaria reestabelecida naquele local, armistício decretado, ele vira as
costas e a Eliane sacramenta:
- "Piu..."
Gargalhada geral, uma boa surra e
a caçulinha no outro cômodo, de alma lavada pelo corretivo aplicado, vibrava:
"isso, papai, bate mesmo nesses moleques..."
E, assim, era sedimentada a união
de nós três, que existe até hoje entre as minhas irmãs e eu.
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