Sete de maio... Quinta-feira...
Noite tranquila, El Cid acordou de muito bom
humor... Brincou com a minha mãe em relação à quantidade de remédios que tomava
todos os dias... Comeu bastante... Demos muitas risadas, nós três, na mesa de
um desjejum que demorou bastante...
Uma parte da conversa foi sobre
loterias e jogos de azar...
Sempre tivemos na família pessoas
que gostavam de apostar em alguma forma de competição... Felizmente, nada
compulsivo, como aquelas velhinhas que frequentam o submundo de bingos
clandestinos ou os fanáticos pelo colorido iluminado dos caça níqueis que estão
espalhados por botecos da periferia da grande São Paulo.
Seu Elpídio, meu avô paterno,
amava os carteados e, até o seu passamento, sempre fazia os seus joguinhos na
loteria esportiva e na Loto... Chegava a suar frio, quando acertava algum
número na sua conferência (não me lembro dele ter alcançado mais do que dois
números em nenhum jogo). Esta sua mania (ou seria vício?) passou para o seu
filho do meio, no caso o meu pai...
El Cid, fazia os seus joguinhos
(preferia a megassena), usando a mesma combinação de números que retirava das
datas de nascimento dele e da minha mãe: 10, 05, 48, 21, 09 e 36.
Ele fazia a aposta mais simples e
dizia que gostaria de acertar junto com outros apostadores (não queria ser o
"único ganhador") para que não chamasse muito a atenção... Gostava do
"anonimato, discrição para estas coisas"...
Claro, que não jogava sempre, mas
conferia impreterivelmente os resultados, apostando ou não... Inclusive, anos
atrás, quase chorou de raiva, pois teria acertado uma quina, se tivesse se
arriscado na loteria.
Todo domingo, até um bom par de anos
atrás, ele saía com o cachorrinho da família, o Zuzu, até a pracinha da Jussara
para comprar o Comércio da Franca e conferir o resultado do sorteio do dia
anterior (como já escrevi, fazia isso mesmo quando não jogava)... Era uma
rotina semanal bem interessante.
Num desses
domingos em que eu estava em Franca, acordei muito cedo e entrei no computador
para ler algumas mensagens.
Ao abrir a página do site, vi que
havia um único acertador da megassena acumulada, justamente da cidade de São
Paulo... Anotei os números que foram sorteados, em um pedaço de papel, e
esperei o meu pai chegar com o jornal.
Ao entrar na cozinha, fui até ele
e mostrei o papel que eu havia copiado da tela do computador, dizendo que eu os
havia jogado durante a semana, mas tinha deixado o bilhete no bolso do meu
jaleco de professor, na escola.
Ele achou interessante a minha
iniciativa, já que eu nunca aposto em nada que envolva dinheiro ou outros
bens... Brincou até que a minha sorte de principiante poderia trazer algum
acerto...
Quando começou a conferir os
números, acreditando que eu havia jogado, de fato, arregalou os olhos e começou
a tremer (o jornal balançava, nas suas mãos, como se estivesse numa manhã de
muito vento, igual às "frescas" que sempre sopram na nossa cidade). Olhou
para mim e, com voz embargada, me perguntou se era verdade mesmo... O riso
aberto de galhofa foi substituído por outro de tensão!
Óbvio que, temendo o pior, eu
disse que era uma brincadeira, pois eu já sabia a sequência sorteada...
Até hoje, eu não sei se a
expressão dele após aquele momento foi de decepção ou de alívio. Mas, a certeza
que ficou foi que perdi totalmente a credibilidade em relação a algum sucesso
que eu pudesse ter em sorteios e rifas...
Tudo bem que nunca mais apostei,
nem em título do tricolor do Morumbi ou no acesso da nossa Veterana.
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