Três de maio... Domingo...
Mais
uma vez, dia de irmos para a chácara. Expectativa para o exame do dia seguinte
que irá direcionar o tratamento com a radioterapia... Já nos levantamos
conversando sobre isso. Há uma esperança incrível, que a radiação ataque um dos
tumores o que está mais próximo da sua coluna e ele volte a caminhar sem o
andador, com firmeza nas suas pernas.
Fomos para o nosso tradicional
programa dominical, localizado na área rural de Cristais Paulista, e não sei
bem o porquê, mas no caminho lembramos de uma história muito engraçada, que
quase causou um problemão para El Cid...
Certa vez, ainda pequeno fui
levado para a empresa que meu pai trabalhava para acompanhá-lo em algumas horas
de "serão noturno" para recuperar um pouco do serviço atrasado.
Era uma usina de laticínios, bem
conhecida na cidade, e ele trabalhava no escritório dela, cuidando de alguns
papéis da contabilidade.
Ele me colocou em uma das mesas
do fundo e ficou na escrivaninha dele, datilografando algumas saídas de
produto.
Eu peguei uma folha de papel e
comecei a desenhar... Curioso, como qualquer criança de oito anos, ao vê-lo
cioso com as notas fiscais, comecei a mexer na mesa que eu estava sentado.
Peguei na gaveta outras canetas, um lápis borracha, algumas folhas de rascunho,
papel carbono e dois carimbos.
Num deles eu li o nome da pessoa
que era a responsável pela mesa que eu estava acomodado.
E, pasmem, ela tinha o nome muito
semelhante da minha avó materna, que me cuidava na ausência dos meus pais e
que, naquele exato dia, tinha delatado para a minha mãe uma malcriação que eu
tinha cometido, resultando em uma pequena dura.
Mordido com aquela situação que
acabava de voltar à minha mente, irado com a minha avó, eu não pensei duas
vezes: peguei uma das folhas de papel e escrevi os maiores impropérios que eu
conhecia, usando o nome da minha avó como sujeito, mas que era quase homônima à
dona da mesa em que eu estava.
Raiva destilada, já leve por ter
podido colocar em palavras tudo o que eu sentia naquele momento, piquei em
pedacinhos bem miúdos aquela pequena lauda e atendi o chamado paterno para
deixar o escritório e voltar para casa.
Tudo perfeito, só que eu não
tinha percebido um pequeno detalhe: embaixo da folha de papel que eu tinha
utilizado havia ficado um dos carbonos que eu havia retirado da gaveta.
No outro dia, a quase xará da
minha avó, ao sentar-se na mesa, praticamente teve uma síncope, ao ler vasto
"conteúdo atentatório contra a sua pessoa".
Deu um "piti" homérico,
um escândalo daqueles que abalou a pacífica estrutura do local.
Os chefes foram chamados, os
funcionários foram convocados e, antes de qualquer investigação mais minuciosa
(ela já tinha acusado um contínuo que "não morria de amores por
ela"), o meu pai ao se aproximar da mesa, sentenciou de maneira extremamente
honesta:
- "Esta é a letra do meu
filho, que eu trouxe comigo ontem à noite, quando vim terminar o trabalho após
o expediente!"
Nem precisava escrever que ele
foi firmemente repreendido e quase demitido.
Além de muito envergonhado, o meu
velho estava muito nervoso e, por sorte, foi parado pela minha mãe antes de me
encontrar.
Após ouvir atentamente a história
que foi contada para ela, percebi que eu levaria uma sova daquelas...
Casa pequena, eu no quarto sem
ter como pular a janela, que estava trancada, ao ouvir o meu nome, não pensei
duas vezes, fui correndo para o banheiro e me tranquei lá dentro.
O meu pai batia na porta e me
ameaçava, dizendo que, se eu não abrisse, o "coro seria dobrado" (já
dá para imaginar o significado de "coro", para esta situação).
De jeito nenhum eu abriria aquela
porta.
Aguentaria ali, sentadinho no
trono, bebendo água da torneira e rezando por, pelo menos, duas semanas...
Como ele viu que ameaças não me
intimidariam, pegou uma chave reserva na gaveta e colocou na fechadura (quem
tinha criança pequena em casa, sempre guardava "chaves reservas" na
gaveta). Após isso, o que transcorreu foi quase uma "comédia
pastelão", pois ele girava a chave para abrir a porta e eu, do lado de
dentro, girava ao contrário para mantê-la fechada.
Como não daria em nada, caberia
somente um acordo mútuo para pôr fim ao impasse.
Após quase duas horas de
intransigência e mais calmo, ele me pediu para sair, pois só tínhamos um
banheiro em casa e a minha irmãzinha queria usá-lo (eu tinha percebido o choro
dela).
Fiz ele me garantir que não me
castigaria.
Como ele sempre foi um homem de
palavra, abri a porta, após a promessa que não levaria uma surra dele.
Naquela noite, apanhei da minha
mãe...
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